O paradeiro de Evo Morales, ex-presidente da Bolívia, tornou-se um mistério que intriga a nação e a comunidade internacional. Após um período de exílio autoimposto e ativa participação política, mesmo sob um mandado de prisão por tráfico humano, Morales está sumido da vista pública há cerca de um mês, desencadeando uma onda de especulações sobre sua localização.
A mudança abrupta na rotina do líder boliviano ocorreu logo após um evento geopolítico de grande impacto: o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a subsequente prisão de Nicolás Maduro. Em resposta a essa ação, Morales expressou forte condenação, qualificando-a como uma “agressão imperial brutal” em suas redes sociais e durante seu programa de rádio dominical. Esta transmissão, notavelmente, é originada do Chapare, uma região crucial para a produção de coca e considerada o epicentro de sua base política.
Desde então, o ex-presidente não fez novas aparições públicas. Ele esteve ausente de quatro edições consecutivas de seu programa de rádio e deixou de comparecer a comícios e reuniões que habitualmente liderava. O
Evo Morales Desaparece: Entenda o Sumiço do Ex-Presidente
não apenas gerou questionamentos sobre sua localização, mas também alimentou uma série de teorias, incluindo a possibilidade de que ele tenha deixado o país, uma hipótese levantada publicamente por um deputado de orientação conservadora.
Contexto Político e a Nova Aproximação com os EUA
A ausência de Morales coincide com um período de significativas alterações no panorama político boliviano. O atual chefe de Estado, Rodrigo Paz Pereira, está empenhado em reestabelecer laços com os Estados Unidos, buscando obter ajuda econômica para o país. A Bolívia, atualmente, enfrenta uma severa escassez de dólares e uma fragilidade acentuada em suas contas públicas, tornando a aproximação com Washington uma prioridade estratégica para o governo Paz Pereira.
Entre os principais objetivos da gestão de Rodrigo Paz Pereira, destaca-se a reconstrução da parceria com os EUA e a viabilização do retorno da Agência de Combate às Drogas (DEA) ao território boliviano. A DEA havia sido expulsa da Bolívia em 2008, durante o mandato de Evo Morales, após operações consideradas violentas na região do Chapare, que culminaram em confrontos e mortes de produtores de coca, gerando grande atrito entre os governos.
A Polêmica do Cultivo da Coca e o Retorno da DEA
No contexto boliviano, o cultivo da folha de coca possui um papel cultural e prático multifacetado, sendo utilizada de forma tradicional e medicinal. A planta é consumida como estimulante natural, para auxiliar na digestão e como tratamento eficaz para o mal de altitude. Contudo, é um fato amplamente reconhecido que uma porção da produção do Chapare é desviada para a fabricação de cocaína, o que mantém a região sob constante vigilância por parte de entidades internacionais de combate ao narcotráfico.
Teorias e Especulações sobre o Paradeiro de Morales
Diante do prolongado sumiço, diversas teorias surgiram para explicar o paradeiro de Evo Morales. Aliados políticos e sindicatos ligados ao ex-presidente têm veementemente negado a hipótese de fuga do país, sugerindo que ele estaria enfrentando problemas de saúde. Durante a primeira edição de seu programa de rádio sem a presença de Morales, o apresentador informou que o ex-presidente teria contraído dengue, uma doença comum em várias nações da América Latina.
Leonardo Loza, ex-senador e um dos mais próximos aliados de Morales, optou por não fornecer detalhes específicos sobre a localização do líder. Questionado diretamente, Loza limitou-se a afirmar que Morales se encontra “em algum cantinho da nossa Pátria Grande”, uma expressão comumente utilizada para se referir à América Hispânica como um todo.
Paralelamente, o mistério em torno do paradeiro de Evo Morales foi transformado em um símbolo político por seus apoiadores. Alguns têm sido vistos utilizando máscaras com a efígie do ex-presidente, e um grupo de ativistas chegou a lançar uma canção intitulada “Onde está Evo?”, que resgata algumas das realizações de sua gestão e conclui com o verso que assegura sua presença “com o povo”.
Imagem: infomoney.com.br
As teorias sobre o paradeiro ganharam nova força no final de janeiro, quando o deputado conservador Edgar Zegarra Bernal fez uma declaração pública indicando que o ex-presidente estaria no México. Essa alegação recorda o episódio de 2019, quando Morales, após ser acusado de fraudar as eleições, deixou a Bolívia e buscou refúgio primeiramente no México, antes de se mudar para a Argentina.
Desta vez, no entanto, Bernal não apresentou quaisquer evidências ou detalhes que pudessem corroborar sua afirmação. Em vez disso, ele fez um questionamento direto ao governo: “Por que o mandado de prisão contra Evo Morales não foi cumprido até agora?”, evidenciando a persistência das questões legais que envolvem o ex-presidente.
O Histórico de Enfrentamentos e a Perseguição Política
Vale recordar que, desde outubro de 2024, Evo Morales vivia recluso em uma pequena vila na selva boliviana. Naquela ocasião, ele estava sob a proteção de centenas de produtores de coca, que agiram para impedir que a polícia executasse um mandado de prisão contra ele. As acusações à época referiam-se a um suposto relacionamento com uma adolescente de 15 anos, ocorrido em 2016, durante seu mandato.
Morales consistentemente nega todas as acusações, caracterizando-as como parte de uma perseguição política orquestrada. Ele aponta seu ex-aliado e sucessor, Luis Arce, como o principal articulador dessa estratégia, após a ruptura da relação entre os dois líderes, que ocorreu quando Morales retornou ao país em 2020.
Luis Arce, por sua vez, enfrentando a pior crise econômica da Bolívia em quatro décadas e uma popularidade em declínio, desistiu da disputa pela reeleição. Seu sucessor, Rodrigo Paz Pereira, embora não tenha tomado medidas diretas contra Morales, ordenou a prisão de Arce, acusando-o de permitir o enriquecimento ilícito durante seu período como ministro das Finanças no governo anterior.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostras
O prolongado mistério em torno do paradeiro de Evo Morales revela a complexidade da cena política boliviana, marcada por tensões históricas, disputas de poder e uma nação em busca de estabilidade econômica. Enquanto as especulações persistem, o futuro do ex-presidente e o impacto de sua ausência continuam a ser pautas cruciais para o cenário sul-americano. Para aprofundar-se em outros desdobramentos e análises sobre o contexto geopolítico da América Latina, convidamos você a explorar mais conteúdos em nossa editoria de Política.
Crédito da imagem: Divulgação