O cenário eleitoral 2026 para a Presidência da República promete reeditar a polarização ideológica entre esquerda e direita, característica marcante dos últimos oito anos da política brasileira. Contudo, a ausência de um nome de consenso no campo conservador, especialmente após os recentes desdobramentos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro, pode abrir caminho para a reeleição do atual mandatário, Luiz Inácio Lula da Silva. Esta é a análise do renomado cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Jorge Chaloub, em declaração recente.
Jair Bolsonaro, figura central na polarização política brasileira, encontra-se inelegível desde junho de 2023. A situação se agravou ainda mais com a decretação de sua prisão em 25 de novembro, eventos que praticamente selaram qualquer possibilidade de sua candidatura. Diante desse impedimento jurídico e político, Bolsonaro buscou, como alternativa, a indicação de seu filho, Flávio Bolsonaro, para representar o legado político da família nas próximas eleições presidenciais.
Cenário Eleitoral 2026: Herança e Trajetória Política em Disputa
A estratégia política de Bolsonaro sempre se diferenciou pela forte ênfase no sobrenome e na herança familiar, dando destaque notável aos seus filhos e, em menor grau, à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Dentro dessa dinâmica, Carlos Bolsonaro, por exemplo, poderia potencialmente disputar um cargo pelo estado do Rio de Janeiro, onde atuou como vereador da capital por 24 anos, sem enfrentar concorrência direta de seu irmão Flávio.
Para Jorge Chaloub, no entanto, essa aposta na transferência direta de capital político do pai para o filho representa um risco considerável. Historicamente, a política brasileira demonstra uma dificuldade em eleger candidatos substitutos através da mera transferência de votos de figuras populares. O professor cita o caso de Lula em 2018, que, apesar de conseguir transferir um número expressivo de votos para Fernando Haddad, não garantiu a vitória final nas urnas.
“É um desafio imenso construir um presidenciável, alguém com grande potencial de votos em uma trajetória presidencial. Isso exige popularidade consolidada, amplo reconhecimento entre os eleitores, a construção de vínculos em nível nacional e a mobilização de pessoas dispostas a participar ativamente da campanha. Será que Flávio Bolsonaro conseguirá replicar todo esse aparato?”, questiona Chaloub, evidenciando a complexidade do desafio de transformar o capital eleitoral familiar em viabilidade presidencial.
Além da dificuldade intrínseca na transferência direta de votos, Chaloub ressalta que outros aliados do ex-presidente, como o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, podem atrair o eleitorado conservador por puro alinhamento ideológico, mesmo sem um endosso explícito ou em um cenário de embate direto com o candidato da família Bolsonaro, adicionando uma camada extra de complexidade à direita.
Uma pesquisa recente do instituto AtlasIntel, em parceria com a Bloomberg, a “Pulse Brasil Latam”, divulgada em dezembro, corrobora a análise do cientista político. Os dados indicam que Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu captar integralmente o capital eleitoral de seu pai. No confronto direto com o presidente Lula, o senador registra 41% das intenções de voto, enquanto o petista alcança 53%. Esta diferença de 12 pontos percentuais é notavelmente maior do que a observada em um cenário hipotético onde Lula enfrentaria Jair Bolsonaro, no qual o ex-presidente marcava 46%, reduzindo a vantagem do atual chefe do executivo para apenas quatro pontos.
Os resultados da pesquisa sugerem que uma parte significativa do eleitorado bolsonarista ainda não migrou de forma automática para Flávio Bolsonaro, apesar da indicação explícita do ex-presidente, que, além de inelegível, teve sua prisão decretada no último mês, afastando-o definitivamente da disputa de 2026. A discrepância se mantém quando Flávio Bolsonaro é comparado a outros nomes importantes do campo da direita.
Imagem: infomoney.com.br
No embate com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), Lula registra 49% das intenções de voto, contra 45% de Tarcísio, uma diferença de apenas quatro pontos percentuais. Fora do círculo mais próximo do clã Bolsonaro, Tarcísio de Freitas emerge como uma figura proeminente capaz de herdar esse eleitorado de direita. Ele se distingue por adotar uma retórica mais técnica e pragmática, em contraste com a linha mais confrontacional frequentemente associada ao bolsonarismo. Contudo, consegue manter a base mais radicalizada através de sua postura firme em temas como segurança pública, questões de gênero e sexualidade, além de seu posicionamento favorável à anistia.
“Tarcísio sempre buscou posicionar-se como um candidato com perfil moderado. O campo mais amplo da direita observa seu nome com considerável interesse. Ele demonstra habilidade em alternar entre movimentos de radicalização e moderação, uma estratégia observada, por exemplo, no Movimento Brasil Livre (MBL), que por vezes promove embates públicos em universidades e, em outros momentos, atua em negociações formais no Congresso”, exemplifica Chaloub, destacando a versatilidade política do governador e sua capacidade de dialogar com diferentes espectros da direita. Para mais informações sobre a UFRJ e a produção acadêmica de seus pesquisadores, consulte o site oficial da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O cientista político Jorge Chaloub alerta para um risco potencial que a candidatura de Tarcísio de Freitas pode representar a longo prazo para o próprio bolsonarismo. Em sua análise, mesmo que Tarcísio não vença as eleições, uma eventual chegada ao segundo turno pode consolidá-lo como a nova liderança da direita aos olhos do eleitorado, reconfigurando o tabuleiro político conservador.
“Se Tarcísio de Freitas conseguir um desempenho expressivo, como quase vencer Lula, tal qual Bolsonaro quase venceu em 2022, o campo da direita poderá vislumbrar uma nova liderança. Jair Bolsonaro manterá sua relevância, mas inevitavelmente perderá espaço. E quando esse espaço é cedido, por mais que Tarcísio defenda as mesmas bandeiras, a fidelidade política diante dos cálculos estratégicos nunca pode ser totalmente garantida”, pontua Chaloub, delineando um possível cenário de reconfiguração na direita brasileira e os desafios da sucessão de lideranças.
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Em suma, a disputa presidencial de 2026 promete ser um embate fascinante entre a tentativa de perpetuar uma herança política e a emergência de novas trajetórias e lideranças. A análise de especialistas e os dados das pesquisas apontam para uma complexa dinâmica de realinhamento no campo da direita, enquanto a esquerda busca consolidar sua posição. Para continuar acompanhando as análises e desdobramentos da política nacional, explore mais artigos em nossa editoria de Política.
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