A inflação no Japão experimentou sua desaceleração mais acentuada em dois anos, atingindo o patamar mais baixo do período recente. Esse cenário impõe um desafio de comunicação significativo para o Banco Central do Japão (BOJ), que, apesar dos dados, parece manter sua determinação em ajustar as taxas básicas de juros quando as condições econômicas forem consideradas propícias. Após a divulgação desses números, a moeda nacional, o iene, registrou uma perda de valor frente a outras divisas, refletindo a incerteza do mercado.
Os dados mais recentes, divulgados pelo Ministério de Assuntos Internos e Comunicações nesta sexta-feira, revelaram que os preços ao consumidor, excluindo o segmento de alimentos frescos, registraram um aumento de 2% em janeiro na comparação anual. Este percentual representa o menor avanço desde janeiro de 2024 e alinhou-se com as projeções medianas dos analistas de mercado, sucedendo uma alta de 2,4% observada no mês imediatamente anterior. A moderação observada neste índice é um ponto crucial para a análise da saúde econômica do país.
Inflação no Japão Desacelera, Desafiando BC Japonês
A análise mais aprofundada dos indicadores de preços demonstra uma dinâmica complexa. O chamado “núcleo do núcleo” da inflação, que exclui tanto os alimentos frescos quanto a energia – e é considerado uma medida mais precisa da força subjacente da pressão inflacionária – avançou 2,6%. Este resultado se mantém significativamente acima da meta de 2% estabelecida pelo Bank of Japan, indicando que, apesar da desaceleração geral, certas pressões persistem. Por outro lado, a inflação cheia, que abrange a totalidade dos itens da cesta de consumo, reduziu seu ritmo para 1,5%, marcando a primeira vez que este indicador ficou abaixo da marca de 2% desde março de 2022.
Desaceleração dos Indicadores Principais e Fatores Contribuintes
A recente moderação nos índices de inflação no Japão sinaliza uma nova fase em comparação ao ano anterior. Parte dessa mudança pode ser atribuída às iniciativas fiscais implementadas pela primeira-ministra Sanae Takaichi, que visam mitigar o custo de vida para a população. Em 2025, por exemplo, a inflação desconsiderando alimentos frescos havia alcançado 3,1%, consolidando o quarto ano consecutivo em que o índice superou a meta de 2%. Essa trajetória indica um período de pressões inflacionárias persistentes, que agora parecem entrar em um estágio de arrefecimento.
Fatores de natureza temporária e as flutuações nos preços de alimentos desempenharam um papel crucial na desaceleração observada. As políticas governamentais direcionadas à redução dos custos de combustíveis, por exemplo, contribuíram para uma queda notável de 5,2% nos preços de energia em janeiro. Similarmente, o avanço dos preços de alimentos (excluindo os frescos) também perdeu fôlego, um fenômeno parcialmente explicado por uma base de comparação elevada do ano anterior. Essas combinações de fatores ressaltam a complexidade das dinâmicas inflacionárias no país asiático, resultando também no enfraquecimento do iene, que atingiu cerca de 155,20 por dólar, partindo de 154,98 antes da divulgação dos dados.
Postura do Banco Central do Japão (BOJ) Diante do Cenário
Apesar do abrandamento dos indicadores de inflação no Japão, o Banco Central já havia antecipado a possibilidade de uma desaceleração, principalmente em decorrência dos subsídios governamentais e dos efeitos de base. Por essa razão, o BOJ tem mantido seu foco na inflação subjacente, vista como um termômetro mais fiel das pressões de preços duradouras. Consequentemente, os dados recentemente divulgados não devem, por si só, alterar a intenção da autoridade monetária de normalizar sua política monetária quando as condições macroeconômicas permitirem. Uma parcela significativa dos economistas projeta, inclusive, uma nova elevação das taxas de juros já no mês de abril, reforçando a expectativa de uma postura mais restritiva por parte do BOJ.
Os preços dos serviços, um componente vital para avaliar a sustentabilidade da inflação e a robustez da demanda doméstica, apresentaram um aumento de 1,4% ao longo de um ano. No que tange a commodities específicas, o preço do arroz, que em maio do ano passado havia registrado uma disparada expressiva de 101,7%, avançou 27,9% anualmente, demonstrando ainda uma desaceleração em sua trajetória de alta. Por sua vez, os alimentos, com a exclusão dos itens frescos, registraram uma elevação de 6,2%, representando o ritmo mais baixo desde março do ano anterior. Essas variações setoriais oferecem uma visão detalhada das diferentes forças atuantes sobre os preços.
Imagem: infomoney.com.br
Contexto Político e Impacto Social da Inflação de Alimentos
O encarecimento dos alimentos, em particular, tornou-se um ponto central no debate político japonês, especialmente após as derrotas eleitorais sofridas pelo Partido Liberal Democrata antes da ascensão da primeira-ministra Sanae Takaichi ao poder. A relevância desse tema se acentua ao considerarmos que a proporção da renda familiar dedicada à alimentação atingiu o maior patamar em 44 anos, evidenciando o impacto direto sobre o orçamento dos cidadãos. Em resposta a essa preocupação crescente, a premiê prometeu suspender o imposto sobre vendas de alimentos por um período de dois anos, buscando aliviar a carga sobre as famílias e mitigar o impacto da inflação no Japão sobre os custos diários.
Perspectivas Econômicas e Futuros Desafios
No âmbito macroeconômico, a economia japonesa registrou um crescimento modesto de apenas 0,1% no último trimestre de 2025, um desempenho que ficou abaixo das expectativas de mercado. O consumo privado, por sua vez, avançou no mesmo ritmo, sinalizando uma demanda interna que ainda busca maior vigor. Esses números indicam uma recuperação econômica ainda frágil, que pode ser afetada pelas pressões inflacionárias e pelas decisões de política monetária. Economistas, contudo, ponderam que, mesmo com o arrefecimento recente, a elevação dos custos trabalhistas pode servir como um fator de sustentação para futuras pressões inflacionárias, potencialmente levando o BOJ a considerar novas elevações de juros ainda no decorrer deste ano. Para uma análise mais aprofundada sobre as projeções econômicas e as políticas monetárias do Japão, é sempre relevante consultar fontes de alta autoridade como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
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Em suma, a desaceleração da inflação no Japão, embora marcante, apresenta nuances que mantêm o Banco Central em estado de alerta e com foco na inflação subjacente. A complexidade dos fatores econômicos e políticos exige uma análise cuidadosa das próximas decisões de política monetária para o país. Para mais notícias sobre o cenário econômico global e suas implicações, continue acompanhando nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: 2026 Bloomberg L.P.