O mercado reage a Trump com otimismo após as declarações do ex-presidente dos Estados Unidos indicarem uma possível desescalada no conflito do Oriente Médio. A notícia repercutiu globalmente, impulsionando as ações e provocando uma queda significativa nos preços do petróleo. No cenário doméstico, o Ibovespa registrou um salto expressivo, enquanto o dólar apresentou recuo, refletindo o alívio dos investidores diante das perspectivas de menor tensão geopolítica. A movimentação marca um dia de ganhos consideráveis para os ativos, embora a volatilidade permaneça como um fator a ser monitorado.
A percepção de um “Trump pacífico”, que afirmou ter adiado ataques à infraestrutura energética iraniana após conversas que descreveu como produtivas, foi o catalisador para as mudanças nos mercados. Anteriormente, as tensões na região haviam elevado o preço do petróleo e causado incertezas. A guinada na postura diplomática surpreendeu analistas e investidores, que não esperavam tal progresso.
Mercado Reage a Trump: Ibovespa Salta com Paz no Oriente Médio
A reação imediata aos comentários de Donald Trump foi notável nos mercados de commodities. Os contratos futuros do Brent, referência internacional, apresentaram uma desvalorização de US$ 12,25, o que representa uma queda de 10,9%, finalizando o pregão a US$ 99,94 por barril. Da mesma forma, o petróleo tipo West Texas Intermediate (WTI), nos Estados Unidos, recuou US$ 10,10, ou 10,3%, encerrando o dia a US$ 88,13. Essa acentuada queda nos preços do petróleo aliviou a pressão inflacionária e os temores de interrupção na oferta de energia, que vinham castigando as bolsas globais nas sessões anteriores.
No Brasil, o desempenho da Bolsa de Valores foi igualmente impactante. O Ibovespa, principal índice acionário brasileiro, disparou mais de 3%, fechando a segunda-feira, 3 de março de 2026, com uma alta de 3,24%, atingindo 181.932 pontos. Este foi o maior avanço percentual do índice desde 21 de janeiro de 2026, quando havia saltado 3,33%. A valorização do Ibovespa reflete um aumento no apetite por risco e a retomada da confiança dos investidores em ativos de mercados emergentes, influenciada pela diminuição do sentimento de aversão ao risco global.
Além do impacto no petróleo e nas ações, os títulos do Tesouro dos EUA também reagiram. Os rendimentos interromperam sua tendência de alta, com os investidores ajustando suas expectativas em relação à política monetária do Federal Reserve (Fed). A redução das apostas em um aperto monetário e a precificação de uma possível flexibilização por parte do banco central americano contribuíram para a melhoria do ambiente para ativos de risco. Conforme observou Chris Larkin, da E*Trade, do Morgan Stanley, o mercado despertou com “notícias potencialmente boas”, mas ressaltou que a sustentabilidade da recuperação dependerá de “ações concretas na frente geopolítica”, reforçando a ideia de que o mercado continua sendo movido por manchetes.
A mudança repentina na postura de Trump, anunciada no Truth Social, ocorreu após ele ter dado ao Irã um ultimato até a noite de segunda-feira (horário de Nova York) para reabrir o Estreito de Ormuz ou enfrentar ataques a usinas de energia. Contudo, o ex-presidente declarou que ordenou uma pausa de cinco dias nas ações militares, citando conversas “aprofundadas, detalhadas e construtivas”. Esse giro pegou os investidores de surpresa, já que havia poucos indícios de progresso diplomático momentos antes das publicações de Trump. Poucas horas antes, Israel havia lançado ataques contra a infraestrutura iraniana, e o Irã estava retaliando contra as nações do Golfo, intensificando a instabilidade.
Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, destacou que a declaração de Trump trouxe um “certo alívio inicial aos mercados, sinalizando uma possível desescalada no conflito, condicionada ao comportamento iraniano no Estreito de Ormuz”. Ele enfatizou que isso ajudou a conter a disparada do petróleo e reduziu os “temores de interrupção na oferta de energia”. As conversas mais recentes entre os enviados dos EUA, Steve Witkoff e Jared Kushner, e suas contrapartes iranianas, teriam ocorrido na noite de domingo, de acordo com o presidente. A agência Fars, do Irã, também noticiou que Trump teria recuado da ameaça de atacar usinas de energia iranianas após Teerã advertir sobre retaliações a usinas em toda a Ásia Ocidental.
Imagem: infomoney.com.br
Apesar do alívio inicial, o cenário de longo prazo para os mercados de petróleo bruto ainda apresenta incertezas. A forma como o Irã responderá à proposta de Trump e a efetividade das negociações são incógnitas. Teerã havia prometido atacar a infraestrutura de energia e água e estava retaliando ativamente Israel e as nações do Golfo mesmo no momento do anúncio. Além disso, mesmo que as negociações sejam bem-sucedidas, a reabertura completa do Estreito de Ormuz – por onde transita cerca de um quinto do fornecimento global de petróleo – dificilmente ocorrerá da noite para o dia. Isso pode manter as rotas de navegação interrompidas e os investidores de energia em um estado de incerteza prolongada em relação ao fornecimento.
Para a Ágora Investimentos, a melhora parcial no ambiente externo “tende a moderar a pressão inicial sobre os ativos brasileiros”, embora o cenário permaneça “sensível a novas manchetes geopolíticas”. A queda acentuada do petróleo adiciona volatilidade ao setor de commodities, enquanto a recuperação dos Treasuries e a desvalorização do DXY (índice do dólar) contribuem para reduzir a aversão ao risco em relação aos mercados emergentes. Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da StoneX, corrobora essa visão, apontando que o movimento “deve diminuir os temores em relação ao prolongamento do conflito e traz algum sinal, ainda que inicial, de possível conciliação entre os dois países”. Apesar das poucas informações detalhadas disponíveis, que mantêm o Brent acima dos 100 dólares por barril, o cenário foi suficiente para “aumentar o apetite por risco” e impulsionar moedas de economias emergentes e índices acionários.
É importante notar que, apesar das afirmações de Trump, existem relatos de que o Irã não fez contato direto com os EUA, nem por meio de intermediários, nos últimos dias. Essa discrepância mantém os investidores em sobreaviso, mesmo com as expectativas de alívio nos conflitos no Oriente Médio. Steven Englander, chefe de pesquisa global de câmbio do G10 e estratégia macro da América do Norte no Standard Chartered, afirmou que o mercado está “farejando um pico no medo da guerra do Irã”, mas considera que “ainda é muito cedo para dizer”. Elias Haddad, chefe global de estratégia de mercados da Brown Brothers Harriman em Londres, expressou que “ainda não está claro se as conversações têm apenas a intenção de acalmar os mercados ou se são um desanuviamento genuíno”.
Harrison Gonçalves, CFA Charterholder e membro do CFA Society Brazil, resumiu a situação, dizendo que “o mundo ainda está respirando os ares dos americanos hoje e deve continuar assim nos próximos dias”. Ele expressou a esperança de que o conflito não se arraste por meses. Este cenário complexo, onde a diplomacia se mistura com a especulação, continua a pautar as decisões de investimento e as projeções econômicas globais, reforçando a importância de acompanhar de perto os desdobramentos geopolíticos. Para uma análise mais aprofundada sobre o cenário econômico global e suas interconexões com eventos internacionais, consulte as publicações do Fundo Monetário Internacional.
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As recentes movimentações nos mercados financeiros globais e domésticos demonstram a sensibilidade a declarações políticas e eventos geopolíticos, especialmente quando se trata de regiões estratégicas como o Oriente Médio. A esperança de desescalada, impulsionada pelas palavras de Trump, trouxe um respiro significativo para os investidores, resultando em ganhos expressivos para o Ibovespa e quedas no petróleo e no dólar. Contudo, a incerteza persiste, e a vigilância é fundamental para entender os próximos capítulos dessa complexa trama. Continue acompanhando nossas análises aprofundadas sobre economia e política em nossa editoria de Economia para se manter informado sobre os impactos desses acontecimentos.
(com Bloomberg e Estadão Conteúdo)