Uma análise recente do Morgan Stanley aponta para uma realidade distinta sobre o potencial do empréstimo consignado privado no Brasil. Enquanto parte do mercado financeiro tem projetado o segmento como um dos pilares do crescimento do crédito no país, o banco de investimentos adota uma perspectiva mais conservadora, indicando que o mercado endereçável é significativamente menor do que as estimativas mais otimistas.
A instituição utilizou uma abordagem de análise “bottom-up”, que se baseia em dados microeconômicos e fundamentos específicos do setor. Essa metodologia permitiu ao Morgan Stanley construir uma visão detalhada, contrastando com as projeções de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões amplamente divulgadas. A conclusão do estudo é que o Mercado Endereçável Total (TAM) para o consignado privado se situa em aproximadamente R$ 100 bilhões, valor substancialmente inferior ao que muitos esperam.
Morgan Stanley: Consignado Privado é Menor que o Esperado
Os dados proprietários e o modelo do Morgan Stanley consideram uma série de fatores estruturais que limitam a expansão do crédito consignado para trabalhadores do setor privado. Entre as principais restrições, destacam-se a curta permanência no emprego formal, a menor taxa de penetração desse tipo de empréstimo e a duração mais reduzida dos contratos, se comparados ao setor público.
Fatores Limitantes e Metodologia da Análise
Um dos pontos cruciais levantados pelo relatório é o tempo médio de emprego no setor privado brasileiro, que gira em torno de 18 meses. Essa característica do mercado de trabalho não apenas restringe o público que pode ser elegível para o crédito consignado, mas também limita a duração efetiva dos contratos, impactando diretamente o tamanho real do mercado. Com base nessas observações, o modelo do Morgan Stanley adotou premissas mais cautelosas.
As estimativas foram construídas considerando uma base atendível de cerca de 25 milhões de trabalhadores formais, um número bem abaixo dos mais de 40 milhões frequentemente citados por outros agentes do mercado. Para ser incluído nessa base, o trabalhador deveria ter mais de seis meses de vínculo empregatício e estar em empresas com mais de 20 funcionários. A taxa de penetração considerada foi de 20%, significativamente inferior aos 30% a 40% observados no mercado de consignado do setor público, o que reflete garantias de crédito mais frágeis e menor acessibilidade para o trabalhador privado. Além disso, o prazo médio dos empréstimos foi projetado em dois a três anos, uma duração mais curta do que a assumida por muitos, justamente em razão da alta rotatividade do emprego privado.
Para fundamentar suas projeções, o Morgan Stanley utilizou dados robustos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e do Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos (SIAPE) do governo federal. Essa base de dados permitiu uma análise aprofundada das dinâmicas do mercado de trabalho e das características dos vínculos empregatícios no Brasil, conforme informações acessíveis publicamente através do Ministério do Trabalho e Emprego.
Crescimento Acelerado Inicial e Maturidade do Mercado
O banco de investimentos reconhece que o crescimento acelerado observado na fase inicial do mercado de consignado privado pode ser atribuído, em parte, à atuação agressiva de alguns credores. Esse grupo inclui fintechs menos experientes no segmento de crédito, que, em alguns casos, podem ter operado sem uma avaliação completa dos riscos envolvidos. A expectativa é que, com o amadurecimento do mercado, uma parcela dessas operações, que podem ter sido originadas com maior risco, tenda a desaparecer ou ser reavaliada.
Imagem: infomoney.com.br
O modelo projeta que o mercado de consignado privado atingirá um saldo estacionário de aproximadamente R$ 100 bilhões, apoiado em três premissas fundamentais já mencionadas: a base atendível de 25 milhões de trabalhadores formais (com as devidas qualificações), uma taxa de penetração de 20% e um prazo médio de empréstimos de dois a três anos. Essas premissas diferem das de outros analistas ao levar em conta as particularidades do mercado de trabalho brasileiro, como a alta rotatividade e as garantias de crédito mais limitadas no setor privado.
Divergências e Implicações para o Mercado
Embora o Morgan Stanley antecipe que haverá discordâncias em relação às suas premissas, especialmente quanto ao prazo médio dos empréstimos – uma variável crítica para a determinação do tamanho do mercado –, o banco reforça que sua análise está alinhada com as características estruturais do mercado de trabalho nacional. A ideia de que a portabilidade do desconto em folha reduziria a importância do tempo de emprego é, na visão do Morgan Stanley, uma subestimação de riscos significativos. Fatores como períodos de desemprego, migração para o mercado informal, mudanças para empresas que não operam o sistema de consignação corretamente e fricções operacionais são aspectos que podem elevar a inadimplência e as provisões para perdas, mesmo com a portabilidade.
Para o mercado financeiro e para as ações de empresas do setor, a correta estimativa do mercado de consignado é fundamental, visto que se trata do maior segmento do crédito ao consumidor no Brasil. Bancos de grande porte e fintechs especializadas no consignado são particularmente afetados por essas projeções. O Morgan Stanley esclarece que, embora sua visão seja mais cautelosa, ela não implica revisões de lucros ou alterações nas recomendações de ações. A análise serve, contudo, como um alerta para expectativas excessivamente otimistas sobre o verdadeiro potencial de crescimento do consignado privado.
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Em suma, a análise do Morgan Stanley serve como um contraponto importante às projeções mais eufóricas sobre o consignado privado, trazendo à tona a necessidade de considerar as particularidades do mercado de trabalho brasileiro. Para continuar acompanhando as análises e notícias mais relevantes sobre economia e o mercado financeiro, convidamos você a explorar outras matérias em nossa editoria de Economia.
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