Em uma posição editorial contundente, o The New York Times classificou o ataque dos Estados Unidos à Venezuela como uma ação ilegal e imprudente. A publicação norte-americana divulgou sua análise neste sábado, dia 3, poucas horas após as Forças Armadas americanas terem executado a operação. O editorial, assinado pelo seu Conselho Editorial, embora reconheça o caráter antidemocrático e repressivo do presidente venezuelano Nicolás Maduro – inclusive citando a fraude eleitoral na eleição presidencial de 2024 –, critica a mobilização de uma força militar excessivamente imponente no Caribe pelo então presidente Donald Trump, exclusivamente com o propósito de ameaçar a nação sul-americana.
A publicação ressalta que a impopularidade de Maduro, dada sua postura antidemocrática e repressiva, além de sua contribuição para a desestabilização do Hemisfério Ocidental nos últimos anos, faz com que poucas pessoas demonstrem simpatia por seu governo. No entanto, o editorial sublinha uma lição crucial da política externa americana do último século: a tentativa de derrubar regimes, mesmo os mais deploráveis, pode frequentemente agravar a situação existente. Esta reflexão serve como um alerta para os riscos inerentes a intervenções externas precipitadas, que podem gerar consequências imprevisíveis e duradouras, conforme apontado pelo influente jornal.
NYT: Ataque dos EUA à Venezuela é Ilegal e Imprudente
A história recente dos Estados Unidos é repleta de exemplos que o editorial do The New York Times utiliza para fundamentar sua crítica. A nação passou duas décadas tentando estabelecer um governo estável no Afeganistão, um esforço que se mostrou infrutífero. Na Líbia, a substituição de uma ditadura resultou em um Estado fragmentado e caótico. As repercussões devastadoras da Guerra do Iraque, iniciada em 2003, continuam a reverberar tanto nos EUA quanto em todo o Oriente Médio, evidenciando a complexidade e os custos humanos e geopolíticos de tais empreitadas. O texto aponta que, de forma ainda mais relevante para o contexto atual, os Estados Unidos, ao longo de sua história, têm intermitentemente desestabilizado países da América Latina, como Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, em tentativas fracassadas de derrubar governos pela força. Esses precedentes históricos servem como um forte argumento contra a atual investida na Venezuela, sugerindo que uma nova intervenção militar poderia repetir ou até exacerbar erros passados, impactando negativamente a estabilidade regional e a credibilidade americana no cenário global.
Um dos pontos centrais da crítica do The New York Times reside na ausência de uma justificativa clara e coerente por parte do então presidente Donald Trump para suas ações direcionadas à Venezuela. O editorial argumenta que Trump estava, na verdade, empurrando os EUA para uma crise internacional de proporções significativas sem apresentar razões válidas que pudessem ser sustentadas. Diante de tal cenário, a publicação enfatiza que, caso o presidente desejasse argumentar o contrário e defender a legitimidade de suas medidas, a Constituição americana estabelece um protocolo claro: ele deveria ter recorrido ao Congresso para obter a devida aprovação. A ausência de um aval congressual, segundo o jornal, transforma as ações executadas pelo governo Trump em uma clara violação da legislação americana, minando a base legal de sua política externa na região.
A retórica utilizada para justificar intervenções militares é outro aspecto fortemente criticado pelo editorial. Historicamente, governos frequentemente rotulam líderes de nações consideradas rivais como “terroristas” a fim de legitimar incursões militares, disfarçando-as como operações policiais ou de combate ao crime organizado. No entanto, o The New York Times classifica essa alegação como “particularmente absurda” no contexto venezuelano. A Venezuela, como destacado pelo jornal, não figura como uma produtora significativa de fentanil ou de outras drogas sintéticas que têm alimentado a recente e devastadora epidemia de overdoses nos Estados Unidos. Além disso, a cocaína produzida no país caribenho destina-se, em sua maioria, ao mercado europeu, e não ao americano. Essa desmistificação das acusações de tráfico de drogas enfraquece consideravelmente a narrativa justificativa para uma intervenção armada, sugerindo que os verdadeiros motivos podem estar enraizados em outras agendas geopolíticas e estratégicas.
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Para o influente veículo de comunicação, a explicação mais plausível por trás dos movimentos agressivos em relação à Venezuela pode ser encontrada na “Estratégia de Segurança Nacional” recém-divulgada pelo governo Trump. O documento, de acordo com o editorial, declara abertamente a intenção de, “após anos de negligência”, os Estados Unidos “reafirmarem e fazerem cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Esta doutrina histórica, que tradicionalmente justificou a intervenção dos EUA em assuntos latino-americanos, é reinterpretada e reforçada sob o que o documento denomina “Corolário Trump”. Este corolário prevê uma série de medidas assertivas e potencialmente agressivas: a redistribuição de forças militares de diversas partes do mundo para a região, a detenção de traficantes em alto-mar, o uso de força letal contra migrantes e traficantes de drogas, e a possibilidade de instalar um número ainda maior de tropas americanas na área. Essa estratégia revela uma postura de endurecimento e uma clara intenção de reassegurar a hegemonia americana na região, levantando sérias preocupações sobre a soberania e a estabilidade dos países latino-americanos, conforme a análise do The New York Times. Para uma compreensão mais aprofundada sobre a política externa americana e suas implicações históricas e contemporâneas, pode-se consultar recursos especializados como o Council on Foreign Relations.
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Em suma, o editorial do The New York Times serve como um alerta crítico sobre as ações dos Estados Unidos na Venezuela, apontando-as como ilegais e imprudentes, desprovidas de justificação constitucional e baseadas em pretextos frágeis. A análise do jornal destaca os perigos de intervenções estrangeiras e a necessidade de se aprender com os erros históricos da política externa americana, especialmente na América Latina. Continue acompanhando as análises e notícias sobre política internacional em nossa editoria de Política, para se manter informado sobre os desdobramentos desses eventos cruciais.
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