A Comunicação Interna: Curadoria da Memória Organizacional emerge como um pilar fundamental para empresas que buscam não apenas preservar sua história, mas transformá-la em um ativo estratégico para o futuro. O sociólogo francês Maurice Halbwachs já postulava que a memória humana é inerentemente coletiva. No cenário corporativo, essa máxima ganha contornos práticos, com a comunicação interna desempenhando um papel crucial na estruturação e ativação estratégica das experiências passadas de uma organização, conferindo-lhes significado e utilidade.
Em um panorama empresarial marcado por elevada rotatividade de pessoal e constantes transformações, organizações que conseguem converter suas vivências acumuladas em referências palpáveis não só salvaguardam sua integridade cultural, como também embasam suas decisões futuras em seu próprio DNA. A nostalgia por si só não garante a continuidade; é a capacidade de um passado metodicamente organizado e intencionalmente aplicado que pode, de fato, guiar o futuro. Assim, a comunicação interna se torna o motor que transforma essa história em capital simbólico.
Comunicação Interna: Curadoria da Memória Organizacional
Contudo, toda narrativa é um processo de seleção e interpretação. A memória não é um fenômeno espontâneo, mas construído por meio de escolhas conscientes sobre o que deve ser perpetuado. Quais lições merecem ser preservadas? Como as crises podem ser ressignificadas como oportunidades de aprendizado? É precisamente nesse contexto que a comunicação assume sua função de curadora da memória organizacional. A forma como as narrativas são estruturadas, compreendidas e veiculadas tem um impacto direto na cultura corporativa e na reputação da empresa, solidificando uma identidade que é forjada nos desafios superados ao longo de sua trajetória.
Empresas com histórias robustas e consolidadas têm demonstrado a eficácia de reposicionar seu passado como uma bússola para o porvir. Exemplos notáveis incluem a cooperativa Aurora Coop, fundada em 1969; a centenária Generali Brasil, que celebrará 100 anos em 2025; e a Leão Alimentos e Bebidas, com impressionantes 125 anos de existência. Tais organizações evidenciam que a gestão de um legado exige uma abordagem metódica. Para elas, a longevidade não se apoia meramente na passagem do tempo, mas na habilidade de converter experiências, momentos de crise e decisões estratégicas em aprendizado contínuo.
A memória, portanto, não pode ser relegada ao papel de mero adereço. No caso da Aurora Coop, o desafio central reside em evitar que seu valioso legado cooperativista se dilua em uma simples recordação. A solução encontrada passa pela curadoria exercida pela comunicação interna, que se encarrega de integrar a memória organizacional aos processos de gestão e à formulação de estratégias. Em outras palavras, não se trata apenas de arquivar fotos ou registrar datas marcantes, mas de transformar quase seis décadas de história em uma referência concreta para as decisões tomadas no presente e no futuro.
Jaqueline Schmitt, especialista que acompanha essa construção de perto, sintetiza com clareza: “Memória estratégica é aquela que orienta cultura e comportamento. Se ela não dialoga com a prática diária, vira apenas registro histórico. Quando dialoga, vira referência.” Essa perspectiva assinala uma transformação mental importante, que privilegia a coerência em detrimento de qualquer romantização do passado. Decisões atuais adquirem maior solidez quando informadas por experiências anteriores, abarcando desde crises superadas e escolhas significativas até valores reafirmados ao longo dos anos. Uma história bem organizada e acessível capacita tomadas de decisão mais conscientes, prevenindo a repetição de erros e protegendo a identidade corporativa.
Legado Vivo: Da Tradição à Inovação com Comunicação Estratégica
Na Leão Alimentos e Bebidas, cuja fundação remonta a 1901, a tradição poderia facilmente ser confundida com estabilidade estática. Contudo, a empresa adota uma postura distinta. Seu legado não é tratado como uma herança inerte, mas como uma força dinâmica que impulsiona as decisões contemporâneas e futuras. Danielli Bortolamedi, à frente da área de Desenvolvimento Organizacional e Institucional, rechaça qualquer visão nostálgica, afirmando que “tradição é um ativo vivo, que se fortalece quando dialoga com inovação, escuta e capacidade de adaptação”.
Essa visão é sustentada não somente pela experiência centenária da Leão, mas pela forma como ela é aplicada no dia a dia da organização. Graças à curadoria da comunicação interna, a memória organizacional transcende o simbólico e passa a orientar práticas concretas: desde o processo de integração de novos colaboradores (onboarding) e os rituais internos, até as narrativas da liderança e as escolhas de gestão de pessoas. Essa intrínseca coerência entre passado, presente e futuro não se estabelece por acaso; é um esforço contínuo. “É essa capacidade de fortalecer a cultura, inspirar atitudes e dar coerência às escolhas que transforma a memória em capital estratégico, sem se limitar ao registro do passado”, enfatiza Danielli.
Em casos como o da Leão, a memória funciona como um eixo de alinhamento cultural, conectando gerações de colaboradores às diretrizes estratégicas da companhia. Embora a celebração de marcos importantes seja válida, é insuficiente. O verdadeiro diferencial, segundo Danielli, reside em converter esses eventos históricos em estratégias de engajamento e aprendizado. Dessa forma, a memória oferece suporte ao alinhamento cultural, fomenta o senso de pertencimento e otimiza a tomada de decisões em um ambiente de constante transformação, mas também de forte tradição e confiança, tanto interna quanto externamente.
A celebração do centenário da Generali Brasil é um exemplo eloquente dessa filosofia. Ao completar 100 anos em 2025, a companhia poderia ter optado por uma campanha institucional convencional. Contudo, a escolha foi outra: estimular o senso de pertencimento dos colaboradores, transformando a celebração em uma vivência memorável, como explica Débora Pinto, diretora de RH. Assim nasceu o Spazio di Memoria, um espaço físico que rapidamente se estabeleceu como um polo cultural, exibindo fotografias enviadas pelos próprios colaboradores, objetos históricos recuperados e entrevistas com ex-profissionais da empresa.
Ao envolver pessoas de forma ativa, e não apenas documentos, o projeto consolidou a memória organizacional da Generali Brasil como uma experiência tangível, realçando o papel estratégico da comunicação interna na construção de um sentido coletivo. “Tornar essa história tangível aumentou o orgulho de pertencer de todos”, observa Débora. Os colaboradores participaram ativamente da concepção do espaço, assumindo um papel de protagonistas dessa narrativa. O passado, nesse contexto, tornou-se visível, acessível e compartilhado. “É gratificante perceber que decisões tomadas hoje estarão refletidas e expostas futuramente, transformando-se em legado para as próximas gerações”, afirma Débora.
A Curadoria da Comunicação Interna: Mais que Registro, Orientação Estratégica
Se a memória não é um fenômeno neutro, a curadoria também não o é. Toda narrativa é submetida a filtros: o que é incluído, o que é omitido, o que ganha proeminência, o que permanece em segundo plano. Sem esse trabalho criterioso de seleção e atribuição de sentido, a história de qualquer empresa corre o risco de se fragmentar em um arquivo desordenado, uma coleção de lembranças isoladas que, por si só, pouco comunicam. Recordar que “já passamos por algo parecido” pode evocar um fato, mas não o transforma, automaticamente, em aprendizado. Para que isso ocorra, é preciso intenção. E é nesse ponto que a comunicação interna pode ser decisiva, estruturando a memória organizacional de modo que a herança institucional se converta em uma fonte de inspiração e orientação estratégica.
No caso da Generali Brasil, o centenário não foi tratado como um evento isolado, mas como uma oportunidade para aprofundar essa curadoria. Débora Pinto detalha que o projeto contou com uma equipe multidisciplinar e entusiasmada, motivada por um compromisso genuíno com o legado da companhia. Duas lideranças foram cruciais nesse processo: Glaudy Maia, gerente de Ouvidoria com quase três décadas de empresa, que trouxe o repertório vivo da companhia — a memória encapsulada em experiências pessoais; e Marina Castilha, gerente de Inovação, que introduziu uma camada tecnológica ao projeto, desenvolvendo a ferramenta EmiglIA, que permite a pesquisa estruturada e acessível da trajetória da companhia.
Imagem: melhorrh.com.br
Entretanto, nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, é capaz de construir sozinha uma narrativa verdadeiramente humana que traduza uma história centenária de maneira autêntica. Por essa razão, a Generali convocou a Pacta Clara, uma consultoria especializada em memória organizacional, para reforçar o rigor do processo. A equipe da consultoria mergulhou no acervo histórico e, em parceria com o time interno, definiu o que realmente representava a essência da companhia. A etapa de seleção não foi um mero detalhe, envolvendo questionamentos como: “O que simboliza a identidade da empresa?”, “Quais episódios moldaram sua cultura?” e “Que aprendizados foram extraídos?”.
“Realizamos entrevistas com pessoas-chave e encontramos ex-colaboradores saudosos, com grande repertório sobre a companhia”, relata Débora. Ao integrar a equipe atual na busca por esses veteranos, a pesquisa ganhou um novo significado, transformando-se em um elo entre histórias e pessoas. “Criamos uma verdadeira comunidade”, observa Débora. Posteriormente, a agência Approach apoiou a divulgação dos materiais, estendendo o alcance da narrativa para além dos limites da empresa. O resultado foi a conexão entre os diferentes momentos da Generali e a própria história do Brasil, inserindo a trajetória da companhia em um contexto social mais amplo. Quando a comunicação interna atua nesse nível de articulação com a gestão de pessoas, a curadoria da memória organizacional assume um caráter estratégico, capaz de sustentar identidade e pertencimento a longo prazo.
O legado não pode ser meramente documentado. Danielli Bortolamedi, da Leão, compartilha que a companhia registrou seus marcos significativos por meio de diversas ações simbólicas ao longo dos anos, incluindo um livro histórico no centenário, museus em suas fábricas e a conversão da antiga casa da família Leão em um espaço de memória. No entanto, a executiva ressalta que a memória não se restringe a objetos ou arquivos, mas se manifesta cotidianamente e de forma altamente atual.
Como parte da estratégia de comunicação interna, mais de 600 colaboradores da Leão utilizam o aplicativo Leon como um ambiente contínuo de troca, reconhecimento e compartilhamento de histórias. Nesse espaço, a memória organizacional transcende os registros formais, ganhando vida nos relatos dos colaboradores, nos marcos históricos, nas conquistas recentes e nas referências que contextualizam as decisões atuais. O fluxo é ininterrupto, criando um diálogo que harmoniza passado e presente sem ceder à nostalgia. “No fim, o que buscamos é algo simples e poderoso: que cada colaborador se reconheça como parte dessa história e entenda que a cultura não é algo herdado, mas construída todos os dias”, resume Danielli.
Os temas emergentes no aplicativo são aprofundados na newsletter trimestral “Leão Em Pauta”, solidificando a memória como um processo multifacetado. Mais do que meramente informar, a equipe atua como guardiã da memória e da marca, traduzindo esse legado para a linguagem contemporânea sem perder sua essência. Essencialmente, trata-se de uma escolha contínua sobre como a organização deseja se posicionar e ser percebida no mercado.
Na Aurora Coop, o critério é batizado de legitimidade. “Construir memória é, de fato, fazer escolhas”, reconhece Jaqueline Schmitt, coordenadora corporativa de Comunicação. E escolher implica responsabilidade, assim como registrar exige ouvir diversas fontes, preservar a essência dos fatos e contextualizá-los. Por essa razão, em vez de ocultar momentos de tensão ou decisões difíceis, o caminho é revisitá-los com a perspectiva do aprendizado. “Não tratamos essas fases como algo a ser ocultado, mas como parte do processo de amadurecimento da organização”, explica. O cuidado, segundo Jaqueline, reside na forma de narrar essas histórias: com respeito às pessoas envolvidas, fundamentação em dados e contextualização histórica. “A memória precisa ser verdadeira para ser útil, caso contrário perde credibilidade”, salienta. E credibilidade, nesse contexto, representa capital simbólico. Sem ela, a comunicação interna perde sua força como mediadora de sentido, e a memória organizacional se torna uma recordação distante, incapaz de orientar qualquer estratégia presente.
Ao fim do dia, quando a comunicação interna opta por tratar a memória organizacional como uma infraestrutura cultural, os resultados se manifestam no cotidiano da empresa, e não apenas em celebrações pontuais. O onboarding deixa de ser um evento protocolar para transbordar identidade; a liderança encontra referências sólidas para suas decisões, e o pertencimento se transforma em um vínculo autêntico. Na prática, as empresas que ativam sua história percebem rapidamente que colaboradores, tanto os antigos quanto os novos, compreendem não apenas o que fazem, mas por que o fazem. “Isso fortalece o senso de pertencimento, o engajamento e a conexão com o propósito”, afirma Danielli Bortolamedi. Os indicadores da Leão corroboram essa assertiva, com 100% de adesão às Pesquisas Pulse e um índice de satisfação de 85%. No entanto, o impacto transcende as métricas.
Existem também efeitos menos visíveis, mas igualmente estruturantes. Quando a liderança possui um conhecimento aprofundado da trajetória da organização, as decisões passam a dialogar com princípios já testados. A memória, nesse contexto, atua como uma bússola. “Líderes que conhecem a trajetória tendem a tomar decisões mais alinhadas aos princípios”, observa Jaqueline Schmitt, da Aurora Coop. O resultado, segundo ela, é percebido na retenção de talentos, na motivação e no orgulho de pertencer à empresa — indicadores que nem sempre surgem de imediato em dashboards, mas que conferem sustentação à cultura e à reputação ao longo dos anos. E quando essa curadoria se materializa em iniciativas concretas, como o Spazio di Memoria da Generali Brasil, o impacto se reflete diretamente no clima organizacional e na marca empregadora. “O espaço certamente contribuiu para que os colaboradores se sentissem parte da história”, afirma Débora Pinto. Dessa forma, o que emerge não é uma narrativa polida, mas valores testados pelo tempo: superação, decisões conscientes, transparência e coerência. É dessas memórias, organizadas com método e intenção, que nasce a direção que projeta o futuro.
A relevância da comunicação interna na promoção do legado e na construção de uma cultura sólida é cada vez mais reconhecida. O Prêmio Empresas que Melhor se Comunicam com Colaboradores (PEMCC), em sua 4ª edição, visa justamente reconhecer as organizações que elevam a comunicação interna a uma vantagem competitiva. Com 20 categorias, abrangendo desde “Influenciadores Internos” a “Memória Organizacional”, “Gestão de Crise”, “Liderança Comunicadora” e “Campanha”, o prêmio oferece uma plataforma para que as empresas demonstrem seu impacto e inspirem o mercado. A participação garante visibilidade, acesso a um banco de cases gratuito e a oportunidade de interagir com os maiores especialistas do setor no Fórum Anual de Comunicação Interna. Para garantir sua inscrição e fazer parte dessa transformação, acesse o site do PEMCC ou entre em contato com Ana Carolina Felizardo pelo WhatsApp (32) 99150-1070. O futuro da comunicação interna é construído por quem decide atuar.
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Aprofundar-se na forma como a comunicação interna se torna a guardiã e orquestradora da memória organizacional revela um caminho promissor para a sustentabilidade e coerência empresarial. Ao transformar experiências passadas em referências estratégicas, as companhias não apenas celebram sua trajetória, mas pavimentam um futuro mais sólido e alinhado aos seus valores essenciais. Para mais análises aprofundadas sobre gestão e comunicação corporativa, continue explorando nossa editoria de Análises e mantenha-se atualizado sobre as tendências que moldam o mundo dos negócios.
Crédito da imagem: Reprodução MundoCoop