A crise no Oriente Médio, intensificada pelo fechamento do estratégico Estreito de Ormuz, provoca um cenário de incertezas no setor aéreo global, gerando preocupação entre viajantes e companhias. Por essa rota vital transita aproximadamente 20% do volume mundial de petróleo, e sua interrupção já impacta aeroportos europeus, que enfrentam riscos de escassez de combustível. Consequentemente, empresas aéreas têm ajustado suas operações, resultando em cortes de voos, reajustes de rotas e elevação nos preços das passagens. Um ponto crucial dessa conjuntura é a exclusão comum de cancelamentos decorrentes de conflitos em apólices de seguro-viagem, deixando os consumidores em uma situação de vulnerabilidade e dúvida sobre como proceder.
A complexidade da situação levou especialistas do mercado de seguros e do direito do consumidor a se manifestarem, buscando esclarecer os desdobramentos e oferecer orientações práticas aos passageiros afetados. O Estreito de Ormuz, um corredor marítimo fundamental localizado entre Irã e Omã, é essencial para o fluxo global de petróleo e gás. No entanto, desde o dia 28 de fevereiro, a região tem sido palco de confrontos, como os ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, o que resultou em uma drástica redução do tráfego marítimo e um aumento significativo nos riscos para embarcações que tentam cruzar a área.
Crise no Oriente Médio: Impacto em Voos e Seguros de Viagem
Os dados mais recentes evidenciam a magnitude da interrupção. De acordo com um levantamento da Lloyds List Intelligence, empresa britânica especializada em dados marítimos, entre 1º e 11 de março de 2025, foram registradas apenas 77 travessias pelo Estreito de Ormuz. Este número contrasta drasticamente com as mais de 1.200 embarcações que cruzaram a mesma passagem em um período recente equivalente, demonstrando o severo impacto no comércio e transporte. A tensão na região permanece elevada. Na última quarta-feira, dia 29, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterou suas ameaças ao Irã, em meio aos impasses nas negociações para a resolução do conflito. No dia anterior, a Casa Branca havia informado estar avaliando a proposta iraniana mais recente para a reabertura do Estreito de Ormuz, sublinhando a instabilidade política e militar que permeia a área.
As repercussões dessa instabilidade já se fazem sentir na aviação. Conforme noticiado pelo jornal Financial Times, a ACI Europe, entidade que representa os aeroportos da União Europeia, emitiu um alerta no início de abril sobre o iminente risco de uma escassez sistêmica de combustível de aviação (QAV), caso a situação geopolítica no Estreito de Ormuz não seja normalizada. Em uma carta, a ACI enfatizou que, se o tráfego pela passagem não for retomado de maneira significativa e estável nas próximas três semanas, a falta generalizada de combustível se tornará uma realidade para os países da União Europeia. Embora as companhias aéreas afirmem possuir estoques suficientes para o curto prazo, os fornecedores já sinalizam dificuldades em garantir as entregas futuras, prevendo um cenário desafiador para os próximos meses.
Diante desse panorama, algumas companhias aéreas já começam a ajustar suas operações. A Lufthansa, por exemplo, anunciou o cancelamento de aproximadamente 20 mil voos de curta distância programados até outubro. Essa medida representa uma redução de cerca de 1% em sua capacidade total e tem como objetivo principal a economia de combustível, em vista da incerteza tanto na oferta quanto nos preços do querosene de aviação. Tais ações refletem a cautela das empresas em um ambiente operacional cada vez mais complexo e imprevisível, buscando mitigar os impactos financeiros e logísticos da crise.
Quando se trata de seguro-viagem, a situação se mostra ainda mais delicada para os consumidores. Cláudia Brito, diretora comercial e de marketing da Coris, empresa atuante no segmento, explica que guerras, conflitos armados e ações militares são, via de regra, eventos que constam como exclusões contratuais na maioria das apólices. Essa prática se justifica pelo fato de serem eventos de larga escala, imprevisíveis e com potencial de gerar um impacto massivo em um curto espaço de tempo, inviabilizando a precificação do risco com base em modelos atuariais tradicionais.
No entanto, Eduardo Zincone, diretor médico da Hero Seguros, outra empresa do setor, ressalta que a análise de casos de cancelamento de voos por falta de combustível, quando decorrente de um conflito, exige uma avaliação individualizada. Se a causa primordial do cancelamento estiver diretamente ligada à escassez de combustível provocada por um conflito armado, a tendência é que o evento se enquadre na exclusão de guerra. Contudo, se a companhia aérea atribuir o problema a uma falha operacional interna, sem ligação direta com o conflito, o caso poderá ser considerado elegível para cobertura. Brito complementa que, em situações de cobertura, pode haver reembolso de despesas adicionais, como hospedagem e alimentação, desde que respeitados os limites contratuais e mediante comprovação adequada. A Fenaprevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), que representa as seguradoras nacionais, não se manifestou até o fechamento deste texto.
Imagem: infomoney.com.br
Mesmo diante das cláusulas de exclusão por guerra, os especialistas em direito do consumidor afirmam que o passageiro não está totalmente desamparado, mas precisa agir de forma organizada e munir-se de provas. O advogado Luan Mazzali Braghetta, especialista na área, aconselha que o passageiro compile toda a documentação pertinente: bilhetes aéreos, comprovantes de pagamento, a apólice e suas condições, comunicações de cancelamento, eventuais negativas de cobertura por parte da seguradora e registros de gastos adicionais incorridos. É crucial, segundo Braghetta, tentar obter uma justificativa formal e detalhada da companhia aérea, pois a distinção entre uma “impossibilidade operacional” e um “ajuste de malha” pode ser determinante para a análise do caso.
A advogada Kamilla Barizon, também especialista em direito do consumidor, enfatiza a necessidade de uma análise minuciosa da apólice completa, com atenção especial às cláusulas de exclusão, antes de qualquer providência. Com a documentação reunida, o primeiro passo recomendado é registrar uma reclamação formal junto à companhia aérea, à seguradora ou à agência de viagens, sempre solicitando e guardando o protocolo de atendimento. Em caso de ausência de solução, o consumidor pode recorrer a plataformas como Consumidor.gov.br, Procon (Programa de Proteção e Defesa do Consumidor), ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) e, no que diz respeito aos seguros, à Susep (Superintendência de Seguros Privados), o órgão federal responsável pela regulamentação e fiscalização do setor. Se persistir a falta de resolução, o Juizado Especial Cível surge como uma via, sendo gratuito, mais ágil e dispensando a necessidade de advogado para causas de até 20 salários mínimos. Braghetta conclui que não se pode encarar esses casos como uma perda inevitável, pois “tudo depende da redação do contrato, da justificativa do cancelamento e das provas apresentadas.” Para mais informações sobre a influência de fatores geopolíticos nas cadeias de suprimentos globais, consulte fontes como o Financial Times.
Confira também: Imoveis em Rio das Ostras
A complexidade da crise no Oriente Médio e suas ramificações no setor aéreo e de seguros ressalta a importância de os consumidores estarem bem informados e preparados para cenários adversos. A atenção aos detalhes contratuais e a organização de documentos são passos fundamentais para a defesa de seus direitos. Para continuar acompanhando as análises sobre os impactos econômicos de eventos globais, convidamos você a explorar mais conteúdos em nossa editoria de Economia.
Crédito da imagem: InfoMoney