ESG vira inovação na rotina de grandes empresas brasileiras

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A percepção de que o extraordinário reside no cotidiano, naquilo que se repete a ponto de se tornar invisível, é o cerne de uma nova abordagem para o universo ESG vira inovação. Grandes corporações no Brasil estão demonstrando que as práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) podem impulsionar avanços significativos não por meio de rupturas radicais, mas pela otimização e ressignificação de processos já enraizados em suas operações diárias. Esta perspectiva inovadora foi o tema central da segunda edição do Melhor RH Innovation, que destacou empresas que transformam o “infraordinário” em resultados tangíveis e sustentáveis.

O foco em elementos comuns da jornada empresarial – como a cadeia de suprimentos de alimentos, a gestão de talentos, a governança de iniciativas dispersas ou o descarte de uniformes – revela um novo campo para a inovação. Ao invés de buscar soluções complexas e distantes de seu core business, as companhias que se destacam no cenário ESG estão aprimorando o que já existe, conferindo um novo propósito a rotinas estabelecidas e gerando valor social, ambiental e econômico de forma integrada. Esse “novo olhar” é a verdadeira força motriz por trás da inovação em sustentabilidade.

ESG vira inovação na rotina de grandes empresas brasileiras

A premiação no Melhor RH Innovation reuniu casos notáveis que, embora distintos em suas operações, compartilham o princípio de encontrar no ordinário o espaço para inovar. Entre os vencedores, destacam-se o Grupo Risotolândia, com sua abordagem na cadeia alimentar; o Grupo Aço Cearense, que transformou a carência de mão de obra qualificada em um programa de formação; a Cia Tradicional de Comércio, pela estruturação de sua agenda ESG; e a PremieRpet, que encontrou no descarte de uniformes a matéria-prima para um projeto de economia circular com impacto social.

Grupo Risotolândia: Inovação na Cadeia Alimentar

Para o Grupo Risotolândia, empresa especializada em refeições, a inovação em ESG partiu de seu próprio negócio: a alimentação. Com foco na segurança alimentar, economia circular e fortalecimento da agricultura familiar, a companhia estruturou três frentes complementares em sete municípios do Paraná. A diretora de Gente & Gestão, Kamille Fraga Dantas, ressalta que essa abordagem exigiu uma reorganização interna, integrando áreas como Qualidade e Sustentabilidade sob uma mesma diretriz, transformando a sustentabilidade em um critério decisivo para múltiplas equipes. Essa sinergia organizacional é, para ela, mais impactante do que qualquer iniciativa isolada, garantindo que a mentalidade ESG permeie todas as esferas da companhia. “O impacto social, para nós, não é um apêndice, mas uma extensão direta dos nossos valores”, afirma Kamille.

A materialização dessa estratégia ocorreu em três projetos. O “Ciclo Bom”, em parceria com a associação de catadores de Corbélia, apoiou 30 famílias, destinando corretamente 356 toneladas de recicláveis e fortalecendo a geração de renda. O segundo projeto levou alimentação regular e apoio socioeducativo para 70 crianças da Associação Amigos do Caximba. Por fim, o “Projeto Raízes” ofereceu capacitação, visitas técnicas e análises de solo a 70 agricultores familiares. Kamille enfatiza que o sucesso dessas ações reside em colocar as pessoas no centro, sejam elas colaboradores, clientes, agricultores ou beneficiários, mostrando que “o crescimento da empresa impulsiona, obrigatoriamente, o desenvolvimento social”. O RH, nesse contexto, assume um papel de “arquiteto cultural e facilitador de pontes”, transcendendo a gestão interna e atuando como um elo entre a organização e as comunidades.

Grupo Aço Cearense: Formação e Empregabilidade

O Grupo Aço Cearense transformou uma lacuna de mercado em uma oportunidade de inovação em ESG. Diante da falta de mão de obra qualificada para suas operações de siderurgia e florestal, e da realidade de jovens sem preparo no Ceará, a empresa desenvolveu o “Projeto Crescer”. A gerente de Comunicação e Cultura de Desenvolvimento, Kellen de Almeida Andrade, explica que, em vez de apenas competir por talentos escassos, a companhia optou por participar ativamente da formação desses profissionais. O programa oferece capacitação técnica, desenvolvimento comportamental e certificação, conectando diretamente a formação a oportunidades de emprego.

A aplicação da metodologia Lean foi crucial para estruturar o Projeto Crescer, garantindo que cada etapa fosse parte de um fluxo contínuo. Isso resultou na formação de um valioso banco de talentos alinhado às necessidades da empresa e na redução pela metade do tempo de seleção e da curva de aprendizagem. Até 2025, o programa já havia capacitado 211 pessoas em sete turmas, com 95 efetivações (45% de aproveitamento), impactando mais de 800 indivíduos. Kellen destaca que a estratégia permitiu “conciliar crescimento empresarial, impacto social e inovação na gestão de pessoas”, provando que a eficiência pode, de fato, ampliar o alcance social das iniciativas.

Cia Tradicional de Comércio: Estruturação de uma Agenda ESG

A Cia Tradicional de Comércio, responsável por marcas como Astor e Pirajá, enfrentava o desafio de dar método e governança a iniciativas ESG que, embora existentes, permaneciam dispersas. Em 2024, a criação de uma área dedicada ao tema marcou um ponto de virada, com o RH assumindo um papel proativo na articulação entre lideranças, cultura e estratégia. Marcella Atrib Baccan, gerente de Segurança dos Alimentos e ESG da companhia, explica que a mudança respondeu ao crescimento da organização e à responsabilidade inerente a essa expansão. “À medida que a empresa cresce e se valoriza, seu potencial de impacto aumenta”, afirma Marcella, destacando a importância de direcionar essa capacidade para gerar efeitos positivos.

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Imagem: melhorrh.com.br

A estruturação da agenda incluiu um treinamento abrangente para as lideranças sobre a importância do ESG e seus riscos, seguido pela construção de uma Matriz de Materialidade. Essa metodologia, aliada ao Sistema B, permitiu que a empresa definisse prioridades com base na escuta dos stakeholders e em uma avaliação crítica de seus impactos. Com a criação de um Comitê Estratégico de ESG em 2024, que conta com a participação do sócio fundador e acompanhamento mensal, a agenda ganhou força. Os resultados incluem 21 restaurantes e o escritório administrativo operando com energia 100% renovável (44% das operações), 74% das vagas de liderança preenchidas internamente e 55% das lideranças autodeclaradas pretas, pardas ou indígenas. Dos 31 objetivos estabelecidos, 19 já foram concluídos. A companhia também envolveu 120 fornecedores estratégicos em levantamentos sobre diversidade e impacto socioambiental, e estabeleceu parcerias com a SP Invisível e o Instituto Capim Santo para projetos de empregabilidade, impactando 148 pessoas. A sustentabilidade, para Marcella, exige melhoria contínua e responsabilidades compartilhadas, transformando-se na forma como a empresa pensa e decide.

PremieRpet: O Uniforme como Agente de Transformação

A PremieRpet focou em um dos elementos mais corriqueiros de sua operação: o uniforme. O “Projeto ReVest”, idealizado pelo diretor de RH Alexandre Gregory, buscou aplicar a sustentabilidade a decisões cotidianas, dando uma nova finalidade a peças que antes seriam descartadas como resíduo. A inovação reside em reconhecer o valor do uniforme não apenas como vestimenta de proteção e identificação, mas como matéria-prima para um ciclo de economia circular com impacto social.

O processo envolve a substituição adequada dos uniformes, a descaracterização da identidade visual e a reciclagem para transformá-los em cobertores. Em um ano, cerca de 1.400 quilos de uniformes foram substituídos, e mais de 7 mil peças foram reaproveitadas, evitando que mais de dez metros cúbicos de material fossem parar em aterros. Os cobertores produzidos, totalizando 195, foram doados por meio do Instituto PremieRpet à ONG 2 Mãos e 4 Patas, no Rio Grande do Sul, para animais atingidos por enchentes. Essa iniciativa demonstra que “a sustentabilidade ganha ainda mais significado quando coloca as pessoas e a vida no centro das decisões”, conforme Gregory. Para ele, o RH assume uma função estratégica ao conectar o cuidado com o colaborador, a redução de impactos ambientais e o atendimento a necessidades sociais, mostrando que a inovação em ESG tem a ver com gerar valor humano, ambiental e coletivo.

A valorização de práticas ESG nas empresas tem crescido exponencialmente, impulsionando a busca por soluções que integrem sustentabilidade e resultados de negócio. Para se aprofundar nas diretrizes e incentivos para o desenvolvimento sustentável no Brasil, consulte o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), uma instituição chave no fomento de iniciativas alinhadas a esses princípios.

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Em síntese, os cases apresentados reforçam que a inovação em ESG não depende necessariamente de grandes investimentos ou tecnologias complexas. Ela emerge da capacidade de observar, questionar e redesenhar o que já faz parte da rotina corporativa, encontrando um novo propósito em processos existentes e gerando valor em múltiplas dimensões. Continuar acompanhando as tendências e análises sobre o cenário econômico e as práticas empresariais inovadoras é fundamental para compreender as transformações do mercado. Acesse nossa editoria de Economia para mais insights sobre como as empresas estão moldando o futuro.

Crédito da imagem: Portal Melhor RH

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