O plano do Pentágono para reduzir o domínio da China em terras raras está em pleno vapor, orquestrado por uma equipe de ex-executivos de Wall Street a poucos quarteirões da Casa Branca. A iniciativa estratégica visa estabelecer uma cadeia de suprimentos independente para elementos de terras raras e ímãs, componentes cruciais encontrados em uma vasta gama de produtos, desde eletrodomésticos a sistemas de mísseis. O objetivo primordial é evitar a repetição da crise de 2023, quando a China utilizou seu controle sobre esses minerais para pressionar Washington durante a guerra comercial, forçando o então presidente Donald Trump a ceder.
Internamente, o grupo responsável por essa empreitada no Pentágono é jocosamente apelidado de “Deal Team Six”, uma clara alusão à renomada unidade de missões especiais da Marinha, a Seal Team Six. Esta equipe opera com urgência, buscando estruturar acordos financeiros inovadores que envolvem bilhões de dólares. As ferramentas incluem participações acionárias, garantias de preços mínimos de longo prazo, compromissos de compra, empréstimos e outras modalidades financeiras sofisticadas para impulsionar a produção e garantir o fornecimento de minerais críticos fora da esfera de influência chinesa.
Pentágono mira reduzir domínio da China em terras raras
Rush Doshi, ex-diretor para a China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Biden, sublinha a criticidade da situação: “Estamos em um nível de alerta máximo.” Ele enfatiza a percepção de que “não há tempo para questionar se não teria sido melhor termos feito isso com um método puramente baseado no mecanismo de mercado.” Desafiar a hegemonia chinesa nesse setor, construída ao longo de décadas por Pequim, é um objetivo de longa data para os Estados Unidos, embora os resultados anteriores tenham sido limitados. As projeções mais otimistas da nova equipe do Pentágono indicam que um aumento significativo na produção americana só deve ser alcançado até o final da década.
A abordagem agressiva desta estratégia de negociações marca uma mudança notável em relação à década anterior, que se concentrava principalmente em restringir as exportações para a China, bloquear seus negócios em território americano e combater sua espionagem e atividades cibernéticas. Oficialmente nomeada Unidade de Defesa Econômica (EDU), a equipe do Pentágono também planeja expandir sua nova metodologia para outras vulnerabilidades estratégicas, como os cabos de dados submarinos e os produtos químicos essenciais para a fabricação de medicamentos, garantindo uma proteção mais ampla da infraestrutura e da indústria americana.
No entanto, essa pressa em fechar acordos não está isenta de críticas. Representantes do setor alertam que a velocidade com que o Pentágono opera pode levar ao apoio de empresas sem um histórico comprovado, além de ignorar potenciais conflitos de interesse. Eles argumentam que as metas estabelecidas são irrealistas e que a postura governamental incentiva as empresas a exagerarem suas capacidades a fim de obter financiamento. Derek Scissors, pesquisador sênior do conservador American Enterprise Institute, declarou: “O governo Trump praticamente grita aos quatro ventos que suas decisões serão tomadas visando ganho financeiro, em vez de criar cadeias de suprimentos independentes.”
O Pentágono refuta veementemente essas alegações. Sean Parnell, porta-voz do Departamento de Defesa, assegurou que o departamento “mantém estrita imparcialidade, priorizando soluções que beneficiem diretamente o combatente”. Ele adicionou: “Empregamos um rigoroso processo de avaliação para todos os parceiros em potencial, garantindo que cada empresa cumpra as capacidades prometidas e as alegações de marketing.” Essa afirmação busca reforçar a integridade e a seriedade dos processos de seleção e parceria.
Apesar da equipe do Pentágono afirmar possuir uma capacidade de financiamento de US$ 200 bilhões para os próximos três anos, ainda persistem questionamentos sobre como essas negociações se alinham às leis de investimento governamental. Em uma audiência em fevereiro, o senador Roger Wicker, republicano do Mississippi e presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, expressou preocupação: “Atualmente, existem poucas leis para regular o aumento repentino de negócios com participação acionária, em particular.” Ele instou por uma maior coordenação com o Congresso para garantir a transparência e a legalidade das operações.
Embora utilizadas em pequenas quantidades, as terras raras são indispensáveis para a produção de valor agregado que atinge impressionantes US$ 1,2 trilhão, conforme dados da Bloomberg Economics. O governo americano ambiciona produzir ímãs suficientes para suprir metade da demanda global até 2030. Atualmente, a China detém uma fatia esmagadora da produção, sendo responsável por 94% dos ímãs de terras raras em 2024, de acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), um dado que demonstra a urgência da reorientação estratégica dos EUA. Para mais informações sobre a importância desses minerais, consulte o relatório da Agência Internacional de Energia sobre minerais críticos: Critical Minerals Outlook 2024.
A Unidade de Defesa Econômica (EDU) foi formalmente estabelecida em abril, mas a atual iniciativa remonta às primeiras semanas do segundo mandato de Trump. Subordinada ao Subsecretário de Defesa e bilionário do setor de private equity, Stephen Feinberg, a EDU colabora estreitamente com outras divisões do Departamento de Defesa e agências como o Departamento de Comércio e a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA. Essa coordenação multifacetada é crucial para a concretização dos complexos acordos em andamento.
Quando a China impôs restrições ao fornecimento de terras raras e ímãs em 2023, em resposta às tarifas de Trump, o impacto foi quase imediato e severo. Montadoras e outros grandes consumidores rapidamente alertaram para a iminência de interrupções na produção. Pequim só aliviou as restrições após Washington concordar em reduzir as tarifas e flexibilizar as proibições de exportação de tecnologia para a China, evidenciando a vulnerabilidade dos EUA e a necessidade urgente de uma cadeia de suprimentos independente.
Imagem: infomoney.com.br
Desde então, o governo tem se empenhado em construir uma cadeia de suprimentos não chinesa para ímãs permanentes, que são fabricados com elementos de terras raras. Em julho, Stephen Feinberg liderou um acordo com a MP Materials Corp., a única produtora de terras raras nos EUA. Este pacto incluiu um investimento de capital de US$ 400 milhões, marcando o primeiro investimento desse tipo na história moderna do Pentágono e posicionando o governo como o maior acionista da empresa. Adicionalmente, o Pentágono estabeleceu um preço mínimo para alguns dos produtos de terras raras da MP e garantiu que todos os ímãs produzidos em uma nova instalação seriam adquiridos por clientes da área de defesa e do setor comercial por um período de dez anos.
Negócios subsequentes, alguns ainda em fases preliminares, abrangem desde um produtor americano de ímãs até a mineradora brasileira de terras raras Serra Verde. Esta última foi posteriormente vendida à americana USA Rare Earth em uma transação avaliada em US$ 2,8 bilhões, destacando a abrangência global da estratégia e a participação crucial de nações como o Brasil na diversificação da cadeia de suprimentos de terras raras. Para assegurar a demanda por esses novos ímãs de origem não chinesa, funcionários do governo têm pressionado as principais montadoras dos EUA a se comprometerem com contratos de compra, mesmo que as empresas ainda não os produzam em larga escala, conforme informações de pessoas familiarizadas com as conversas.
Os críticos também acusam o Pentágono de falhar em uma triagem adequada para detectar corrupção e potenciais conflitos de interesse. Eles apontam para o fato de que a Cerberus Capital Management, empresa de private equity da qual Stephen Feinberg foi cofundador, é uma participante significativa nos mesmos setores em que o Pentágono está investindo. Além disso, o filho do ex-presidente, Donald Trump Jr., é sócio de uma empresa que investiu na Vulcan Elements, a qual possui um empréstimo condicional de US$ 620 milhões, levantando mais dúvidas sobre a imparcialidade das decisões de investimento.
Em resposta, um porta-voz do Pentágono defendeu Stephen Feinberg, afirmando que ele é um “homem íntegro que se comportou de maneira ética ao longo de toda a sua carreira”. A declaração também mencionou que Feinberg se desfez de suas participações em seus negócios após assumir o cargo, em estrita conformidade com as normas federais de ética. Um porta-voz de Trump Jr. declarou que ele é um investidor passivo na Vulcan por meio de um fundo e que nunca interage com o governo federal em nome de qualquer empresa na qual investe ou para a qual presta consultoria. Uma fonte familiarizada com o raciocínio do Pentágono revelou que a EDU não tinha conhecimento da participação de Trump Jr. no momento do acordo, por ser “pequena demais para ser detectada no processo de verificação”, acrescentando que, mesmo com conhecimento, “não existem muitas empresas que fazem o que a Vulcan faz, e o departamento precisa responder às realidades do mercado.”
Chris Kennedy, analista de política econômica da Bloomberg Economics, observa uma mudança estratégica significativa: “Eles estão apoiando projetos destinados a fortalecer a base industrial em geral, e não apenas a suprir as necessidades de defesa.” Ele concluiu que “isso era algo praticamente impossível no passado”, destacando uma nova era de investimento governamental voltado para a resiliência econômica nacional de forma mais abrangente.
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A complexidade e a urgência do plano do Pentágono para diminuir a dependência chinesa em terras raras, com a inclusão estratégica de países como o Brasil, demonstram um esforço coordenado para salvaguardar a segurança econômica e militar dos Estados Unidos. As parcerias estratégicas e os investimentos massivos são elementos-chave nessa iniciativa que visa remodelar as cadeias de suprimentos globais de minerais críticos. Continue acompanhando nossa editoria de Economia para mais análises e desenvolvimentos sobre este e outros temas que moldam o cenário geopolítico e econômico mundial.
Crédito da imagem: Bloomberg LP