IA no RH: iFood e o Futuro da Gestão de Pessoas

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A **IA no RH: iFood e o Futuro da Gestão de Pessoas** está redefinindo o panorama corporativo, transformando uma área que, por muito tempo, foi percebida como um mero suporte. Atualmente, o setor de Recursos Humanos é um pilar nas decisões estratégicas das organizações, influenciando diretamente a cultura empresarial, os estilos de liderança e a capacidade de adaptação dos negócios frente às rápidas transformações do mercado.

Em um cenário marcado pela crescente adoção da inteligência artificial, pela celeridade das mudanças e pela emergência de novas modalidades de trabalho, o grande desafio transcende o simples acompanhamento dessa evolução. A meta é, de fato, guiar essa transição com uma perspectiva crítica, um propósito bem definido e um impacto mensurável, garantindo que a tecnologia sirva como um catalisador para o desenvolvimento humano e organizacional.

IA no RH: iFood e o Futuro da Gestão de Pessoas

A diretora de Recursos Humanos do iFood, Camila Pinto, uma figura com vasta experiência em empresas de renome como AWS e Diageo, acompanha atentamente esta metamorfose. Sua trajetória profissional é marcada pelo desenvolvimento organizacional e pela criação de culturas de alto desempenho. Ela enfatiza a necessidade de um RH impulsionado por dados, tecnologia e inovação, sem jamais negligenciar a essência humana. Nesta entrevista, Camila aborda a relevância estratégica da área de Pessoas, os desafios enfrentados pela liderança contemporânea, a influência da inteligência artificial na gestão de pessoas e os roteiros para edificar organizações preparadas para o futuro.

A Transformação Estratégica do RH

Historicamente, o RH era frequentemente relegado a funções de apoio. Hoje, sua participação é crucial em discussões centrais sobre cultura, liderança, análise de dados e transformação organizacional. A dificuldade de muitas empresas em posicionar a gestão de pessoas no cerne de sua estratégia reside, frequentemente, em encarar o RH como uma agenda corporativa secundária. Isso resulta em projetos morosos e rígidos que perdem a relevância diante das dinâmicas do mercado.

No iFood, a abordagem é distinta: o foco em pessoas é visto como uma alavanca mensurável para cultura e gestão. As metas de negócio, como os impressionantes 180 milhões de pedidos mensais que representam 0,64% do PIB brasileiro, são intrinsecamente ligadas à promoção da autonomia e do empreendedorismo. A estratégia de negócios define as necessidades da organização, e a área de Pessoas desenvolve os mecanismos que amplificam as capacidades humanas essenciais para o alcance desses objetivos. Para se tornar um protagonista, o RH deve adotar uma mentalidade de “produto” e de “dono”, caracterizada por testes rápidos, aprendizado com pequenos erros, uso de dados para decisões informadas e a transferência de tarefas transacionais e repetitivas para a tecnologia.

Tecnologia e Automação na Gestão de Pessoas

O setor de People assume um papel estratégico quando transita de uma postura reativa e operacional para atuar como arquiteto de sistemas e impulsionador de negócios, liderando processos de mudança. Essa transição ocorre ao otimizar a rotina, automatizando tarefas repetitivas ou orquestrando sistemas multiagentes. O iFood exemplifica essa visão por meio de duas frentes complementares: a Alli, uma assistente de IA que gerencia mais de 40 mil chamados internos de RH por mês, e o Toqan, uma plataforma proprietária que democratizou a inovação interna, com mais de 12,5 mil agentes de IA ativos mensalmente, desenvolvidos pelos próprios colaboradores.

Ao aliviar a carga burocrática e operacional das equipes, o time de Pessoas ganha tempo e energia para se sentar à mesa de decisões estratégicas, munido de dados preditivos que permitem antecipar cenários de negócios com precisão. Essa mudança libera o capital humano para se dedicar a atividades de maior valor agregado, como o planejamento estratégico e o desenvolvimento de talentos.

Crescimento Acelerado e Coerência Interna

Em ambientes de alta velocidade, o risco de que a urgência se torne o método predominante é significativo. Para crescer rapidamente sem sacrificar a capacidade de escuta, reflexão e coerência interna, o iFood integra a escuta de forma orgânica e descentralizada, utilizando seus produtos de Pessoas e seu modelo de gestão. O clima organizacional, composto por 8 mil “foodlovers” (como são chamados os colaboradores), é monitorado semanalmente pelo canal “Fala Aí”, gerando dados ágeis e ciclos trimestrais de resultados. Isso permite que os líderes ajustem rotas em tempo real.

A escuta ativa é complementada por rituais mensais transparentes, como o “All Faces”, onde toda a empresa dedica duas horas para analisar métricas de negócio e debater abertamente perguntas críticas, enviadas diretamente à alta liderança. Esse processo assegura que o alinhamento cultural acompanhe a velocidade do crescimento da empresa, mantendo a coesão em meio à expansão.

Cultura Viva: Além do Discurso

A cultura empresarial é um conceito amplamente discutido, mas nem sempre praticado com profundidade. Uma cultura está verdadeiramente viva quando orienta comportamentos diários e entregas sem a necessidade de microgerenciamento ou controle visual da presença física. No iFood, um modelo híbrido flexível com propósito é adotado, baseado em rituais e canais intencionais. Não há monitoramento de dias obrigatórios no escritório, mas sim o cumprimento de “combinados de alta qualidade”. E-mails formais são substituídos pelo dinamismo do Slack, ditando uma agilidade assíncrona que o negócio exige. A cultura se manifesta na prática ao desconstruir a tradicional dependência entre a presença física no escritório e o atingimento de recordes, com talentos distribuídos por todo o Brasil.

Empresas frequentemente declaram valorizar autonomia, inovação e protagonismo, mas esses valores são testados quando confrontam hierarquia, poder e zonas de conforto. Essa contradição emerge no apego a modelos de comando e controle antigos ou quando processos de Pessoas tentam penalizar erros honestos, sufocando a propensão ao risco e a capacidade de inovar. Para evitar uma organização disfuncional, o iFood estabelece que o erro com intencionalidade, voltado ao aprendizado e à evolução, é aceitável. A empresa neutraliza o gargalo centralizador da hierarquia aplicando a “mentalidade de produto” por meio de “Jet Skis”, incentivando qualquer colaborador a testar soluções pequenas, rápidas e assíncronas, descentralizando o poder de inovar sem as amarras burocráticas.

Liderança na Era da Velocidade

A liderança contemporânea enfrenta múltiplas demandas: entregar resultados, lidar com ambiguidade, praticar a escuta ativa, oferecer direção, desenvolver equipes e sustentar o ritmo do negócio. Para evitar que essa régua resulte em exaustão, é fundamental que o líder construa um time superior a si mesmo, delegando autonomia, sendo um exemplo de comportamento e utilizando a tecnologia para aumentar velocidade, eficiência e produtividade. O RH é essencial ao fornecer ferramentas que simplificam o dia a dia e reduzem o peso operacional. No iFood, isso se materializa com a Alli, que absorve 40 mil chamados mensais, e o Toqan.

Por exemplo, um assistente inteligente como o Agilito pode reduzir tarefas comerciais analíticas de três horas para apenas cinco minutos, eliminando o trabalho transacional e repetitivo. Isso devolve aos líderes e suas equipes o tempo de qualidade necessário para focar no que é estratégico e insubstituível: a inovação, o desenvolvimento de pessoas e as conexões humanas, elementos cruciais para o avanço da empresa.

Segurança Psicológica e Alta Performance

A discussão sobre segurança psicológica ganhou relevância, mas há casos onde o esforço por um ambiente mais saudável pode enfraquecer a franqueza e a cobrança. O equilíbrio entre essas dimensões é alcançado, no iFood, por meio de uma filosofia interna de “Cuidar e Desafiar”. Isso cria um ambiente de extrema confiança, onde as pessoas são incentivadas a se desafiar mutuamente, mantendo, ao mesmo tempo, um alto padrão de exigência nas entregas. Segurança psicológica não significa ausência de cobrança ou complacência, mas sim a liberdade de divergir sem medo.

O iFood estimula o “conflito produtivo”, onde o debate aberto e transparente – inclusive direcionando questionamentos complexos e desconfortáveis diretamente ao CEO e à liderança em rituais mensais – purifica os ruídos da organização. Liderar sob essa ótica requer estabelecer combinados de alta qualidade, onde a cobrança rigorosa por resultados e a transparência funcionam porque os critérios são claros, os dados embasam as decisões e as pessoas têm o respaldo da cultura para propor soluções, testar e aprender.

O mercado corporativo amadureceu, e as empresas líderes já discernem claramente a diferença entre uma cultura de alta performance e uma meramente impulsionada por pressão e excesso. A pressão excessiva resulta em adoecimento, esgotamento e um turnover que compromete a produtividade e a escala no médio prazo. Em contraste, a verdadeira alta performance é fruto de engajamento, clareza operacional e uma profunda conexão emocional dos colaboradores com o propósito do negócio, criando um ambiente sustentável e produtivo.

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Imagem: melhorrh.com.br

A Experiência do Colaborador e o Papel da Liderança

Em muitas organizações, a experiência do colaborador depende fortemente da qualidade do gestor. Quando isso ocorre, o problema reside na fragilidade dos mecanismos de RH e do modelo de gestão. A experiência de um colaborador não pode ser refém da sorte de ter uma liderança inspiradora; ela deve ser sustentada institucionalmente. No iFood, tecnologia e dados preditivos democratizam essa jornada e mitigam vieses. A empresa construiu um sistema de avaliação de desempenho semestral estruturado, que captura insights por meio de feedbacks 360º, recomendados por um algoritmo de interações chamado ONA (Organizational Network Analysis). Isso assegura que as pessoas com maior interação contribuam com feedbacks relevantes para o desenvolvimento. Além disso, a Judite, outra ferramenta de IA, oferece dados acionáveis e direcionamentos específicos aos líderes, no momento certo do ciclo de gestão, blindando a coerência cultural em toda a estrutura, independentemente da distância física.

Uma geração de líderes ascendeu em um contexto muito diferente do atual. Para manterem-se relevantes, esses líderes precisam desaprender a cultura do microgerenciamento, o apego à centralização das decisões e a necessidade do controle presencial visual. No iFood, a relevância do líder está em sua capacidade de atuar como facilitador e direcionador estratégico de fluxos de trabalho e de equipes altamente autônomas. Em um cenário de transformação contínua e rápida evolução tecnológica, o gestor relevante deve desarmar o ego para liderar em ambientes de alta ambiguidade, utilizando a IA para acelerar o contexto, o alinhamento e o suporte à sua estrutura, focando sua energia no que é insubstituível: a escuta, a estratégia, a transparência e o desenvolvimento acelerado de seu time.

O Impacto Profundo da IA

Quando se discute inteligência artificial, muitos pensam em eficiência e produtividade. No entanto, a mudança mais profunda reside na forma de decidir, aprender e trabalhar. A IA não é apenas uma ferramenta para ganhos marginais ou redução de custos operacionais; ela redesenha as competências valorizadas e a própria dinâmica do aprendizado contínuo. No iFood, a transição da IA Generativa convencional para a IA Agêntica – onde robôs assumem e executam autonomamente fluxos e processos integrados de ponta a ponta – transforma profundamente o modo de trabalhar. As pessoas deixam de ser executoras de tarefas repetitivas para se tornarem gestoras de processos complexos, amparados pelo algoritmo. A tecnologia atua como um braço direito que amplia a capacidade analítica e de entrega, exigindo que o profissional mude sua forma de aprender, focando em curadoria, estratégia e resolução de problemas.

As preocupações na incorporação da IA por parte das empresas são válidas. A ansiedade competitiva e a adoção de ferramentas por modismo, sem critério e sem uma profunda intencionalidade cultural, são alarmantes. Quando a IA é implementada sem governança de dados robusta e sem o envolvimento do RH, criam-se “caixas-pretas” operacionais que geram desconfiança e ruído nas equipes. No iFood, esse risco é mitigado integrando o uso e a proficiência tecnológica oficialmente ao modelo de desenvolvimento: o engajamento com a IA faz parte da avaliação de desempenho semestral e impacta diretamente os “foodlovers”. Ao proporcionar clareza sobre o que a empresa espera, a tecnologia é percebida como uma aliada real da evolução do negócio, não uma ameaça.

IA: Potencializar, Não Substituir

Existe um medo silencioso no mercado de trabalho: o de perder valor. O RH pode conduzir essa conversa com sucesso ao comunicar, através de ações e não apenas discursos, que o propósito da tecnologia é potencializar a capacidade humana, e não substituir pessoas. A confiança é construída na prática: quando o colaborador percebe, no dia a dia, que a automação absorve as amarras e a burocracia de sua rotina, ele compreende o ganho real de valor de seu papel estratégico. No iFood, esse medo é combatido com um investimento significativo no preparo dos colaboradores: 50% da verba do PDI (Plano de Desenvolvimento Individual) é destinada à capacitação técnica em IA. A empresa protege o valor do indivíduo, garantindo que ele evolua junto com a tecnologia. Você pode aprofundar seu conhecimento sobre o tema e suas implicações lendo mais sobre as tendências globais sobre o futuro do trabalho impulsionado pela IA.

Limites da Gestão Orientada por Dados

Em empresas altamente orientadas por tecnologia, surge a tentação de medir tudo. O limite entre uma gestão inteligente e uma que empobrece o olhar sobre as pessoas reside na preservação do acolhimento humano, da empatia e na clareza de que os dados respondem “o quê” e “quando”, mas apenas o olhar humano decifra “o porquê”. People Analytics e algoritmos preditivos são usados para eficiência operacional, escala e remoção de vieses, mas sua finalidade principal deve ser sempre liberar o tempo mental e o fôlego estratégico das pessoas.

A diferença crucial entre uma empresa que coleta dados e uma que sabe lê-los reside na capacidade de transformar informação bruta em inteligência preditiva e ações práticas que aprimorem a experiência de trabalho. Coletar dados é uma etapa técnica e transacional que, muitas vezes, alimenta a burocracia. Saber ler os dados, no iFood, significa cruzar indicadores de engajamento do canal de clima semanal com métricas de retenção para antecipar movimentos e calibrar rotas de liderança antes que os problemas se concretizem. Essa abordagem proativa evita crises e otimiza o ambiente de trabalho.

Preparação para a Mudança Contínua

Muito se fala em adaptabilidade, mas pouco no desgaste que a mudança contínua provoca. O iFood prepara seus colaboradores para esse cenário oferecendo pontos de ancoragem psicológica claros e inegociáveis: a força da cultura, a transparência radical e o cuidado genuíno com a saúde integral. A alta velocidade e intensidade do ecossistema de inovação não resultam em exaustão porque há um equilíbrio com uma rede ativa de acolhimento físico e mental. A empresa oferece flexibilidade com propósito, combinados de alta qualidade e canais abertos de diálogo contínuo para proporcionar a previsibilidade emocional que os colaboradores necessitam. A adaptabilidade sustentável existe quando o time tem a segurança de que a infraestrutura tecnológica apoia a operação e que o foco real da companhia permanece no desenvolvimento e no bem-estar humano.

A Liderança do Futuro

A complexidade das demandas atuais – ser mais eficiente, inovadora, rápida, humana e responsável – não destrói o líder, mas acelera a formação de uma liderança mais madura, humana e resiliente. Essas cobranças simultâneas só se tornam contradições esmagadoras para o gestor tradicional que insiste na velha cartilha do comando, do microgerenciamento e do controle presencial. O novo cenário exige líderes que atuem como curadores estratégicos da autonomia de suas equipes. Quem aprende a utilizar ferramentas inteligentes e a IA para absorver o peso transacional e burocrático dos processos consegue focar 100% de sua energia na direção clara do negócio, na franqueza dos combinados e no desenvolvimento humano.

A sucessão e a formação de líderes permanecem entre os maiores desafios organizacionais. Frequentemente, o mercado falha na coragem de confiar e conceder autonomia real antes de uma maturidade de carreira estática. No iFood, esse gargalo é mitigado por programas estruturados de aceleração interna, como o iFuture, programa de estágio focado em IA, e, para níveis seniores, o Entrepreneur in Residence (EiR). Profissionais de mercado disruptivos passam por uma imersão profunda de seis meses em cenários intencionalmente ambíguos e sem escopo definido, baseada em feedbacks constantes. Somente após validar o completo alinhamento cultural e a mentalidade de dono, a empresa lhes entrega a “chave do cofre” para liderarem com total liberdade de decisão.

Ao olhar para os próximos anos, o fator divisor entre empresas que apenas acompanham o mercado e aquelas que constroem futuro será a intencionalidade estratégica de longo prazo. Empresas que apenas acompanham reagem a modismos e tratam pessoas como custo transacional. Aquelas que constroem futuro, como o iFood ao completar 15 anos, transformam sua operação em uma plataforma de desenvolvimento, investindo em tecnologia proprietária e mantendo a cultura resiliente. O amanhã pertence às organizações que não usam a inteligência artificial para cortar processos, mas para potencializar a capacidade humana e gerar valor real para o ecossistema nacional.

A alta liderança do mercado ainda evita encarar que a descentralização definitiva do poder corporativo e o fim do controle visual presencial são caminhos sem volta. Sustentar um modelo híbrido flexível a nível nacional exige uma mudança cultural profunda baseada estritamente em confiança mútua e combinados de alta qualidade, descentralizando o poder para que a tomada de decisão ocorra na ponta. O futuro do trabalho exige maturidade para liderar a autonomia distribuída, e muitas estruturas tradicionais ainda evitam essa conversa porque resistem a abrir mão das amarras de comando e controle do passado.

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Em suma, a entrevista com Camila Pinto do iFood revela que a inteligência artificial não é apenas uma ferramenta de eficiência, mas um agente transformador da cultura e da gestão de pessoas, impulsionando um RH mais estratégico e humano. Para continuar explorando as interconexões entre tecnologia, negócios e o cenário profissional, acesse outros artigos em nossa editoria de Economia para compreender mais sobre as dinâmicas econômicas e de mercado que moldam o cenário corporativo.

Crédito da Imagem: Portal Melhor RH

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