Combate ao crime organizado exige nova estratégia, diz estudo

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A estratégia tradicional no combate ao crime organizado no Brasil, fundamentada na captura ou neutralização de grandes líderes de facções, está desatualizada e não reflete a realidade das organizações criminosas contemporâneas. Essa é a avaliação da pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI-UFF), apresentada durante sua participação no programa Mapa de Risco, uma atração política do InfoMoney.

Por décadas, as autoridades brasileiras operaram sob a premissa de que, ao remover os “chefões”, as estruturas de comando seriam desmanteladas e as atividades criminosas seriam paralisadas. Contudo, essa visão, que norteou grande parte das ações de segurança pública, ignora a complexidade e a adaptabilidade que as facções desenvolveram ao longo do tempo.

Combate ao crime organizado exige nova estratégia, diz estudo

Segundo Grillo, o Estado persiste em perseguir uma estrutura hierárquica que, na prática, já não existe da forma piramidal imaginada. As organizações criminosas atuais operam como redes interconectadas, articulando diversos mercados ilegais e envolvendo uma vasta gama de atores intermediários, o que as torna muito mais resilientes do que se supõe.

A pesquisadora enfatiza a necessidade premente de uma representação mais fiel dessas organizações para que as políticas de segurança pública possam ser eficazes. Em sua análise, é inviável dissociar crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e criminalidade violenta, pois todos esses fenômenos compõem uma mesma engrenagem e estão intrinsecamente interligados. A compreensão de que se trata de uma vasta teia de operações e interações é crucial para qualquer avanço substancial no enfrentamento.

Um dos principais equívocos das atuais políticas, segundo Carolina Grillo, é a persistente abordagem de organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como se fossem estruturas rígidas e piramidais. Sob essa ótica, a remoção de um líder de topo seria suficiente para gerar um colapso em toda a facção, um cenário que se provou irrealista e ineficaz ao longo dos anos.

A história recente do combate ao crime mostra que, inicialmente, houve um encarceramento em massa da base dessas organizações – indivíduos empobrecidos e, muitas vezes, facilmente substituíveis. Posteriormente, a estratégia migrou para a busca incessante por grandes lideranças. Essa “busca míope” por identificar, investigar, capturar ou até mesmo eliminar os chefes falha em desmantelar as organizações, pois ignora a capacidade de regeneração e adaptação desses grupos.

Grillo aponta que a prisão ou morte de um líder tem um impacto significativamente menor do que o imaginado pelas autoridades. Essa resiliência decorre do fato de que as facções desenvolveram mecanismos internos robustos para substituir rapidamente seus dirigentes. Longe de serem insubstituíveis, as posições de liderança são, na verdade, as mais facilmente preenchidas dentro dessas estruturas.

Existem, inclusive, disputas sucessórias internas que garantem uma reorganização ágil e contínua das facções após a vacância de um posto de comando. Essa dinâmica interna assegura que a perda de uma liderança não represente um vácuo de poder, mas sim uma oportunidade para ascensão de novos nomes, mantendo a continuidade das operações criminosas.

Ao concentrar esforços quase exclusivamente na captura de líderes, o Estado desvia sua atenção daquilo que efetivamente sustenta o crime organizado: sua complexa e vasta estrutura econômica. A pesquisadora ressalta que as organizações criminosas há muito tempo transcenderam a dependência exclusiva do tráfico de drogas.

Atualmente, esses grupos articulam uma diversidade de mercados ilegais, que vão desde a exploração de jogos de azar e extorsão até a grilagem de terras e a mineração ilegal. Além disso, mantêm relações permanentes e muitas vezes intrincadas com atividades da economia formal, utilizando-se de esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção para legitimar seus ganhos e expandir sua influência.

Combate ao crime organizado exige nova estratégia, diz estudo - Imagem do artigo original

Imagem: infomoney.com.br

A interconexão entre diferentes mercados ilegais, operados por uma rede de atores intermediários, solidifica a ideia de que crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e a criminalidade violenta formam uma única engrenagem. Essa mudança estrutural exige uma recalibração radical na forma como o combate é travado.

Para Carolina Grillo, é imperativo que o enfrentamento deixe de ser focado apenas em operações ostensivas e repressivas. A prioridade deve ser transferida para a inteligência financeira, a investigação patrimonial e a desarticulação das redes complexas que permitem às facções movimentar recursos, lavar dinheiro e, em última instância, se financiar.

A pesquisadora também faz um alerta sobre a ineficácia da estratégia anterior, baseada no encarceramento em massa da base das organizações criminosas. Apesar de um crescimento expressivo da população carcerária nas últimas décadas, as maiores facções do país, como PCC e Comando Vermelho, continuaram a se fortalecer e expandir.

Essa redefinição do panorama criminal brasileiro exige uma revisão profunda das políticas de segurança pública, demandando uma cooperação mais estreita entre diferentes órgãos governamentais e instituições, conforme diretrizes que podem ser encontradas em portais oficiais de enfrentamento ao crime organizado, como os do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Na leitura de Carolina Grillo, combater organizações como o PCC e o Comando Vermelho demanda abandonar a ideia romântica de que existe um único “chefão” capaz de controlar toda a estrutura criminosa. Em vez disso, a proposta é focar em uma estratégia que identifique e desmantele os fluxos financeiros, as conexões entre os diversos mercados ilegais e as redes de proteção política e econômica que servem de alicerce para essas organizações.

As discussões aprofundadas sobre esses temas são parte integrante do programa Mapa de Risco, do InfoMoney, que é transmitido todas as sextas-feiras, a partir das 6h da manhã, e está disponível no YouTube e nos principais tocadores de podcast.

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Em suma, a expertise da pesquisadora Carolina Grillo no programa Mapa de Risco do InfoMoney desmistifica a visão obsoleta do crime organizado, propondo uma mudança estratégica urgente no combate a essas facções. Para aprofundar nas discussões sobre a dinâmica do poder e os desafios enfrentados pelas políticas públicas, explore mais em nossa seção de Política, onde você encontrará análises e notícias sobre os temas mais relevantes da atualidade.

Crédito da imagem: InfoMoney

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