A comunicação interna eficaz é um pilar estratégico que transcende a mera transmissão de informações, transformando pesquisas de clima e engajamento em ferramentas poderosas de transformação organizacional. A simples ação de solicitar a opinião dos colaboradores, muitas vezes por meio de formulários, não garante uma escuta genuína. É a capacidade da comunicação interna de preparar o terreno, explicar a relevância da pesquisa e, crucialmente, demonstrar ações concretas a partir dos resultados que verdadeiramente impulsiona a participação e constrói confiança.
Sem essa ponte sólida entre a coleta de dados e a implementação de mudanças, o engajamento pode se estagnar em um patamar protocolar. Indicadores estratégicos gerados por pesquisas, embora valiosos, carecem de significado se não forem contextualizados e seguidos por um retorno tangível. Quando há clareza nos objetivos, continuidade no processo e uma devolutiva transparente, a resposta dos colaboradores deixa de ser um mero gesto obrigatório e se torna um ato de contribuição autêntica. Essa transformação foi evidenciada nos projetos laureados na categoria Pesquisa da quarta edição do Prêmio Empresas que Melhor se Comunicam com Colaboradores (PEMCC).
Comunicação Interna Eficaz: O Segredo do Engajamento
A categoria Pesquisa do PEMCC reuniu abordagens distintas, mas convergentes, demonstrando que a importância da pesquisa reside no que é construído a partir das respostas. A Mondelēz Brasil, em parceria com a Ação Integrada, conquistou o prêmio ao tratar o engajamento como uma construção diária, antecedendo o próprio questionário. A Motiva, junto à P3K, focou em solidificar a credibilidade de uma ferramenta unificada de clima. O Sebrae Nacional utilizou a leveza para aproximar um diagnóstico estratégico da rotina de seus colaboradores, enquanto a bp bioenergy, com o Grupo Trama Reputale, ampliou as possibilidades da escuta ativa, alcançando um público majoritariamente operacional. Todos esses cases compartilham a convicção de que perguntar é apenas o início; o valor real está na ação subsequente.
Estratégia Contínua de Engajamento na Mondelēz Brasil
A Mondelēz Brasil, detentora de marcas como Lacta e Trident, reverteu a lógica tradicional, integrando a escuta ativa como parte intrínseca da rotina, e não um evento isolado. Segundo Bianca Esposito, gerente de Comunicação Corporativa, a pesquisa de engajamento não inicia do zero, pois a confiança é cultivada continuamente, por meio de diálogo e conexão entre pessoas, cultura e estratégia de negócio. A companhia almeja liderar o mercado de snacks e dobrar de tamanho até 2030, um objetivo que demanda um time altamente engajado. Por isso, a percepção do colaborador sobre o ambiente de trabalho tornou-se um indicador de negócio crucial, transformando a Pesquisa de Engajamento em um dos momentos mais aguardados do calendário interno.
A empresa adota uma comunicação “always on” ao longo do ano, mantendo a relevância da conversa que precede a pesquisa de engajamento. Em 2025, essa abordagem incluiu a visibilidade de reconhecimentos, ações de voluntariado, lançamentos internos e encontros com a liderança. O objetivo era tecer essas iniciativas em uma narrativa coesa, onde os colaboradores não apenas acompanham, mas ajudam a moldar os rumos da empresa. Bianca Esposito afirma que, no lançamento da pesquisa, o ambiente já refletia um sentimento de coparticipação no futuro da empresa, resultando em alta adesão, impulsionada por uma relação cultivada constantemente, e não por convocação forçada.
O conceito “#FelizEmSerMDLZ” emergiu dessa jornada, refletindo a felicidade dos colaboradores atrelada ao orgulho pelas marcas, ao pertencimento e à liberdade de ser autêntico no trabalho. Não era um mero slogan, mas uma expressão genuína da experiência interna. A hashtag perpassou diversas iniciativas, como Páscoa Lacta e Arraiá Junino Pride, reforçando a Cultura Vencedora da companhia. Essa lógica permitiu que os colaboradores se reconhecessem na narrativa da empresa, aumentando a disposição para contribuir. A comunicação interna, em vez de inaugurar um discurso novo com a pesquisa, deu continuidade a uma história já reconhecida pelo time, promovendo um senso de pertencimento fundamental para transformar a coleta de feedback em um movimento coletivo de engajamento e protagonismo.
A Ação Integrada, parceira da Mondelēz, estruturou a comunicação da pesquisa em três fases: aquecimento, mobilização e reforço pós-respostas, sempre ancorada na cultura organizacional. Caiana Peixoto, coordenadora de Comunicação Interna da agência, explica que a estratégia atualizou a identidade visual e o KV do ano anterior, em vez de criar um conceito isolado. A integração de canais digitais e eventos presenciais posicionou a escuta como um pilar de negócio, alinhado à Visão 2030. Essa consistência levou a pesquisa a ser percebida como uma cocriação, intitulada “Construindo Juntos o Futuro”, alcançando 95% de participação e 95 pontos no índice de engajamento no Brasil, superando todas as metas e tornando a unidade a mais engajada da Mondelēz na América Latina.
O desafio de alcançar públicos diversos, incluindo profissionais de fábricas e equipes externas sem acesso constante a e-mails e plataformas digitais, foi superado com a distribuição de 24 comunicações em diferentes formatos e espaços físicos. Newsletter, canais digitais, murais, TVs corporativas e faixas foram utilizados nas unidades de Vitória de Santo Antão e Curitiba. A segmentação, proximidade e consistência foram cruciais. Além disso, o evento trimestral Get Connected e os materiais para lideranças integraram a pesquisa à estratégia da companhia, com gestores atuando como “tradutores” do processo, adaptando o tom conforme o público para que todos sentissem a importância de sua opinião. O foco na confiança no anonimato e na demonstração de retorno concreto foi reforçado por depoimentos reais de “colegas” (termo da Mondelēz para colaboradores), reiterando que as respostas gerariam mudanças visíveis. Para Bianca, “ouvir é importante, mas demonstrar que os feedbacks geram mudanças concretas é o que fortalece a credibilidade do processo.”
Transição e Credibilidade na Motiva: “Sua Voz nos Move”
Na Motiva, o desafio foi redesenhar a forma de ouvir 16 mil pessoas sem comprometer a operação. Em 2025, a empresa descontinuou a Pulses e adotou a pesquisa GPTW (Great Place to Work) como sua única ferramenta de clima, estendendo-a a todos os colaboradores. Essa mudança estratégica exigiu que a comunicação interna explicasse não só a nova ferramenta, mas também sua importância e como os resultados orientariam decisões sobre metas, PLR, benefícios e treinamentos. Era fundamental reconstruir a credibilidade do processo para evitar que a participação fosse vista como mais uma obrigação corporativa. Tatiana Fritz, gerente de Comunicação Interna da Motiva, explica que o objetivo era que as pessoas compreendessem a pesquisa como um instrumento que vai além de um selo, contribuindo ativamente para a construção da empresa.
Desse contexto surgiu a campanha “Sua Voz nos Move”, que introduziu o novo guia e tom de voz da marca. A comunicação interna adotou uma atitude mais leve e centrada nas pessoas, mesmo com a pesquisa ganhando maior peso estratégico. Tatiana destaca que a mudança de linguagem foi essencial para apresentar uma decisão estrutural sem aumentar a pressão, buscando “engajar sem pressionar, comunicar sem excessos e inspirar respostas sinceras.” Três tensões foram endereçadas: dar legitimidade ao novo indicador, preparar as lideranças para agir sobre os resultados e preservar a liberdade de quem respondia. O princípio cultural do respeito incondicional guiou a campanha, garantindo segurança psicológica e anonimato.
A preparação envolveu cerca de 50 profissionais de Comunicação e RH, que receberam informações para responder a dúvidas. Posteriormente, 500 diretores e gerentes foram alinhados sobre a relação entre os índices da GPTW, planos de melhoria de clima e o programa Líder Nota 10. Por fim, 25 multiplicadores de cultura levaram a conversa a 37 unidades em 13 estados. No lançamento, duas transmissões com a equipe GPTW explicaram o processo e reforçaram o anonimato. A campanha usou elementos de leveza, como karaokê e biscoitos da sorte, para aproximar o público, mantendo a transparência como argumento principal. Tatiana resume que a estratégia entregou pertencimento e confiança, transformando a pesquisa em um “símbolo de evolução compartilhada.”
A P3K, como parceira estratégica, ajudou a conceber a pesquisa como uma narrativa contínua, com planejamento antecipado de mensagens e criação da identidade visual. Elizeo Karkoski, diretor executivo da P3K, ressaltou a necessidade de desenhar um “ecossistema de mobilização que substituísse a cobrança corporativa pelo convite sincero à participação.” A estratégia foi adaptada à transição da Motiva, fazendo com que a nova pesquisa parecesse parte da transformação da companhia, e não uma ferramenta externa. Após o questionário, a comunicação se manteve ativa. A certificação GPTW foi anunciada em vídeo pela vice-presidente de Pessoas e celebrada com a ação “Somos GPTW”, que incluía um hotsite para criação e compartilhamento de cards nas redes sociais. Tatiana Fritz enfatiza o objetivo de engajar todos os níveis e fortalecer a compreensão da escuta ativa como ferramenta de valorização das pessoas.
Os 20 gestores mais bem avaliados foram reconhecidos no Encontro de Líderes, principal evento anual da Motiva, e participaram do Café com Impacto com o CEO, recebendo sessões de fotos profissionais. Esse gesto celebrou, mas também traduziu o índice GPTW em referência de gestão. O projeto ampliou a participação de 47% para 72%, com 10.492 respondentes, e o campo aberto reuniu 22 mil comentários, cinco vezes mais que na edição anterior. A Motiva alcançou a 15ª posição no ranking nacional da GPTW. A Ambição 2035 estabelece a meta de elevar o engajamento de 83 para 92 pontos. O volume de comentários abertos indica que as pessoas recorrem aos canais de escuta quando percebem transparência, um princípio cultural da Motiva. O reconhecimento no PEMCC valida a maturidade cultural e o compromisso da comunicação interna em manter o colaborador no centro das estratégias.
Sebrae Nacional: “De Olho no Clima” com Leveza Estratégica
No Sebrae Nacional, a Pesquisa de Clima Organizacional de 2025 foi guiada pela lógica de interpretar sinais e preparar o terreno para o futuro. O conceito “De Olho no Clima”, derivado da temática meteorológica do ano anterior, buscou continuidade. A equipe de comunicação interna transformou a pesquisa em uma pauta estratégica com uma abordagem leve e bem-humorada. Ativações nos espaços de trabalho, como picolés, máquina de pelúcias e painéis interativos, aproximaram o diagnóstico da rotina. Natasha Teles Araujo Galvão, analista de Comunicação Interna e Endomarketing do Sebrae Nacional, explica que as ativações visavam estimular a escuta de forma espontânea e reduzir a distância entre o formulário e os colaboradores. A leveza abria a conversa, mas o sentido era construído por outras vias.
Imagem: melhorrh.com.br
A comunicação interna desempenhou um papel crucial em traduzir um tema estratégico para uma linguagem mais próxima das pessoas, estabelecendo um diálogo contínuo sobre bem-estar, ambiente de trabalho e melhoria coletiva. Por trás da temática meteorológica, havia a necessidade de assegurar a liberdade para expressar opiniões negativas. A campanha reiterou o anonimato, confidencialidade e segurança da pesquisa, mas também reforçou a credibilidade ao resgatar mudanças implementadas a partir de edições anteriores, como o Programa de Sucessão, a inclusão do Wellhub, a revisão de valores institucionais e alterações em benefícios. Esses exemplos deram concretude à devolutiva, demonstrando que as respostas geravam mudanças reais. Natasha Galvão complementa que, ao evidenciar essa memória entre edições, a organização fortaleceu a credibilidade do processo, incentivando a participação futura.
Com a campanha em andamento, os indicadores foram favoráveis: a adesão cresceu de 87% para 92,6%, e o Índice de Clima Organizacional passou de 80,6% em 2024 para 81,2% em 2025. A entrega pontual de todas as peças previstas contribuiu para manter a mensagem em circulação. Para Natasha, a aproximação entre conteúdo e cotidiano foi fundamental. “Quando a comunicação aproxima o tema da realidade dos colaboradores, a participação acontece de forma mais natural”, afirma. A criatividade, nesse contexto, não visou apenas tornar a pesquisa divertida, mas eliminar sua aparência de procedimento distante. O reconhecimento no PEMCC validou o trabalho conjunto entre comunicação, gestão de pessoas e cultura, reforçando o papel da comunicação interna como ferramenta de engajamento, valorização e fortalecimento da cultura organizacional.
Bp Bioenergy: Escuta Ativa em Ambiente Operacional
A bp bioenergy enfrentou o desafio de levar a pesquisa a 67% de seus colaboradores que atuam na operação, distribuídos em 11 unidades agroindustriais em cinco estados, muitos sem acesso regular a telas. O diagnóstico inicial revelou alto orgulho, mas também dúvidas sobre a estratégia e dificuldades de alcance. Não bastava aprimorar as perguntas; era essencial ouvir em outro ritmo, por outros canais e mais próximo da rotina. Uma pesquisa anual seria insuficiente. O programa “Sua Opinião Transforma” introduziu a “Radar Pulse”, aplicada semestralmente, que combina a percepção das equipes com indicadores da operação, permitindo que uma rodada dialogue com a seguinte. Isso transformou os resultados em balizadores práticos para definir prioridades, rever campanhas e ajustar canais, reduzindo a distância entre a sede e a realidade do campo. Mara Pinheiro, diretora de Comunicação, Relações Institucionais e ESG da bp bioenergy, ressalta que a pesquisa “deixou de ser apenas um retrato pontual e passou a apoiar o planejamento e os ajustes das ações de comunicação interna.”
Para alcançar os colaboradores, a companhia criou grupos de distribuição por unidade no WhatsApp e disponibilizou um questionário anônimo de três minutos no celular. A linguagem foi simplificada, tornando-se mais direta e informal, um ajuste guiado pela própria escuta. A representatividade também foi crucial: colaboradores da operação passaram a ocupar mais espaço nos conteúdos internos e na TV Corporativa, aumentando sua presença em 54% em 2024. Na Radar Pulse, representaram 60% dos respondentes, indicando que a pesquisa refletia melhor a composição real da empresa. Mara Pinheiro observa que essa presença “ajudou a tornar a comunicação mais próxima da rotina das equipes.”
O Grupo Trama Reputale, parceiro da bp bioenergy, revisou o método com base em um diagnóstico de marca empregadora de 2023, estruturando a Radar Pulse como um ciclo semestral de escuta, análise e intervenção por unidade. O nome “Sua Opinião Transforma” visava tornar visível a promessa de que a participação geraria efeitos reconhecíveis. Dados e escuta ativa foram traduzidos para a rotina, seguindo a pista de um comentário dos próprios trabalhadores que pedia uma comunicação mais simples. A empresa atuou em duas frentes: aproximar a informação, usando o WhatsApp por unidade, e aprimorar a linguagem e representatividade, com mais colaboradores da operação nos conteúdos.
A comunicação interna só se torna transformadora quando fecha o ciclo, ou seja, quando os resultados são devolvidos e, mais importante, ações visíveis são tomadas. Kalil Blanco, diretor de Comunicação Integrada do Grupo Trama, afirma que “as pessoas voltam a participar quando percebem que foram ouvidas de verdade.” O crescimento de 65% na participação a partir da segunda edição da pesquisa atesta essa credibilidade. O caso da bp bioenergy eleva a comunicação interna de uma função meramente executora, usando a pesquisa para orientar escolhas e visibilizar encaminhamentos, conferindo à área um assento à mesa das decisões que impactam a cultura e o negócio. A confiança é renovada a cada edição por meio de mudanças reconhecíveis em canais, conteúdos e campanhas subsequentes. Para Mara Pinheiro, “a escuta se torna parte da cultura quando é contínua, gera devolutivas e orienta ações práticas.”
Os dados da Radar Pulse reorganizaram a agenda de comunicação. Se uma rodada indicava que certas mensagens não estavam claras, as ações subsequentes focavam em cultura, segurança, integração e acesso à informação. O Dia da Segurança, Maio Amarelo e as Regras de Ouro tiveram suas campanhas revistas à luz dos insights da pesquisa. A devolutiva não se limitava a números, mas se manifestava nas mudanças nos conteúdos que retornavam ao campo. O método foi testado durante a transição da antiga joint venture para a bp bioenergy, após a aquisição integral pela bp. Os levantamentos ajudaram a identificar dúvidas, dosar o fluxo de informações e adaptar a abordagem, localizando pontos de ruído. Em uma operação agroindustrial, uma mensagem mal compreendida pode afetar orientações de segurança, ética e conduta. Com o novo método, os índices de assimilação dessas pautas superaram 80%, e a safra foi concluída sem acidentes nas unidades.
O crescimento de 65% na participação da Radar Pulse, o orgulho de pertencer em 93%, e a certificação GPTW em 2024 e 2025, com a 16ª colocação no ranking nacional do agronegócio, evidenciam a evolução. Publicações orgânicas de colaboradores no LinkedIn cresceram 32%, ampliando em 119% o alcance das menções à empresa. Esses números, lidos em sequência, revelam o valor de uma escuta que acompanha o movimento da organização e retorna à rotina em forma de decisão. “O diferencial está nessa sequência de escutar, decidir com base no que se escutou, agir e mostrar a ação”, resume Mara Pinheiro, destacando que o reconhecimento no PEMCC carrega a contribuição dos mais de 8,5 mil colaboradores, cujas percepções orientam melhorias e aproximam as mensagens da realidade das equipes.
O Prêmio Empresas que Melhor se Comunicam com Colaboradores (PEMCC) celebra marcas que transformam a comunicação interna em uma vantagem competitiva, oferecendo visibilidade a projetos que fortalecem cultura, engajamento e alinhamento dentro das organizações. Com 20 categorias, a premiação fomenta a circulação de boas práticas em comunicação interna.
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Em suma, os cases premiados no PEMCC demonstram que a comunicação interna eficaz é a chave para transformar pesquisas em ações concretas e fortalecer o engajamento dos colaboradores. Ao adotar uma abordagem contínua, transparente e adaptada às particularidades de cada público, as empresas conseguem construir confiança, impulsionar a participação e colher resultados significativos para o negócio. Para aprofundar-se em estratégias de gestão e desenvolvimento organizacional, leia mais análises sobre o mercado corporativo em nosso blog e continue acompanhando as novidades em nossa editoria de Negócios e Carreira.
Crédito da imagem: Portal Melhor RH