A aprovação de Trump registrou uma nova mínima, conforme indicam recentes levantamentos apartidários, acendendo um alerta entre estrategistas políticos e membros do Partido Republicano. Apesar da postura desafiadora do ex-presidente, que frequentemente desqualifica pesquisas desfavoráveis, os dados mais recentes revelam um cenário preocupante para sua imagem pública e para o futuro político de seu partido, especialmente às vésperas de importantes eleições de meio de mandato.
Desde o início do verão, uma série de sondagens tem consistentemente apontado para uma queda significativa no apoio a Donald Trump. Em contraste com suas declarações nas redes sociais, onde ele insiste que seus “NÚMEROS REAIS DE PESQUISA ESTÃO NO NÍVEL MAIS ALTO DE TODOS OS TEMPOS”, a realidade apresentada pelos levantamentos sugere o oposto. Estes resultados são particularmente desanimadores, posicionando Trump como um dos presidentes de segundo mandato mais impopulares nesta fase do governo na história das pesquisas de opinião, um cenário que remonta à década de 1940.
Aprovação de Trump cai e atinge nova mínima em pesquisas
Historicamente, a única comparação de desaprovação em níveis tão baixos para um presidente de segundo mandato nesta fase do governo seria com Richard Nixon, que, no entanto, estava a poucos dias de sua renúncia devido ao escândalo de Watergate, não oferecendo, portanto, qualquer consolo para a situação atual de Trump. Os novos dados mostram que o ex-presidente conta com o apoio de aproximadamente um terço dos americanos. Este declínio é atribuído, em parte, a fatores como o impasse no conflito com o Irã e os elevados preços da gasolina, que têm gerado um custo político considerável.
Em um contexto político convencional, índices de pesquisa tão baixos como os observados atualmente levariam a uma crise na Casa Branca, com possíveis demissões, redefinição de discursos e a formulação de novas políticas. Contudo, Donald Trump nunca se encaixou no molde de um presidente tradicional. Sua abordagem, marcada pela impulsividade e pela força de vontade, permite-lhe projetar uma imagem de força, independentemente dos números desfavoráveis. Douglas Heye, um experiente estrategista republicano, ressalta que Trump sempre insistirá que as pesquisas são falsas e que não se espera nenhuma alteração em sua estratégia política. Para ele, a não ser que o ex-presidente tenha um acesso de raiva com algum assessor, a linha de ação permanecerá a mesma.
A dificuldade em corrigir o rumo da gestão de Trump reside na falta de um caminho inicialmente claro. Conhecido por seguir seus instintos e mudar de posição abruptamente, sua estratégia o manteve como uma figura dominante na política americana por mais de uma década. É notável que Trump nunca obteve a maioria do voto popular em suas três eleições e tampouco contou com o apoio da maioria nas pesquisas da Gallup durante seus mandatos. No entanto, ele governou como se sua popularidade fosse majoritária.
Os números mais recentes são especialmente preocupantes e têm gerado crescente inquietude entre os republicanos. Há um temor palpável de uma “onda democrata” nas próximas eleições de meio de mandato, que poderia resultar na perda do controle da Câmara e, possivelmente, do Senado. A pesquisa mais recente da CNN indica que Trump tem apenas 34% de aprovação, um índice que se iguala ao seu ponto mais baixo, registrado logo após o ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021. De forma similar, a pesquisa AP-NORC aponta 33% de aprovação, empatando com sua marca mais baixa desde 2017. Os dados da Universidade Quinnipiac são ainda mais críticos, registrando 32%, o nível mais baixo já aferido por essa pesquisa específica.
Contexto Histórico da Aprovação Presidencial
Para contextualizar a situação de Trump, é relevante comparar seus índices com os de outros presidentes em estágios similares de seus segundos mandatos. De acordo com pesquisas históricas da Gallup, Bill Clinton desfrutava de 64% de aprovação, Ronald Reagan tinha 61%, e Dwight Eisenhower, 58%. Presidentes com índices abaixo de 50% incluíam Barack Obama (43%), Harry Truman (39%) e George W. Bush (37%). Todos eles viram seus respectivos partidos perderem cadeiras nas eleições de meio de mandato que se seguiram. A única exceção de um presidente com aprovação ainda menor nesta fase foi Nixon, com 24%, mas ele estava imerso em um processo de impeachment e prestes a renunciar.
O desafio para Trump e o Partido Republicano é que a avaliação negativa do presidente se estende a praticamente todas as áreas, incluindo aquelas em que ele tradicionalmente era mais forte, como a economia e a imigração. A guerra no Irã, por sua vez, já se destacava como o único conflito dos EUA na história das pesquisas de opinião a ser amplamente rejeitado pela população desde o início, e o apoio a ela despencou ainda mais, com os eleitores se opondo ao conflito em uma proporção de dois para um.
Impacto nas Eleições de Meio de Mandato e a Resposta Republicana
A preocupação republicana não se limita apenas à desaprovação generalizada da condução da presidência por Trump, mas também à intensidade dessa desaprovação. Isso sugere que os eleitores insatisfeitos podem estar mais motivados a comparecer às urnas nas eleições de meio de mandato do que os eleitores fiéis do movimento MAGA. Douglas Sosnik, ex-diretor político da Casa Branca durante o governo Clinton, observou que “essas pessoas vão votar”, referindo-se aos eleitores que desaprovam Trump, enquanto os republicanos não alinhados com o MAGA não mostram a mesma motivação.
No entanto, a política contemporânea difere significativamente do passado. A redefinição dos distritos eleitorais da Câmara, um processo conhecido como redistritamento, consolidou-se no meio da década, resultando em menos distritos genuinamente competitivos. Isso implica que, mesmo uma forte “onda democrata”, pode não se traduzir em um ganho tão expressivo de cadeiras como teria acontecido em outros tempos. Sosnik reconhece que os índices de aprovação de Trump estão nos níveis mais baixos já registrados para um presidente no período que antecede uma eleição de meio de mandato, mas ele pondera que “a política mudou tanto que é preciso contextualizar a desaprovação de Trump”.
O estrategista também enfatiza que os republicanos estão “muito mais protegidos do que no passado”, devido às mudanças estruturais impulsionadas pela polarização política e pelo fato de a educação ter se tornado um novo divisor na política nacional. A redução de estados e distritos competitivos pode limitar a dimensão de uma eventual “onda azul”. Kristen Soltis Anderson, pesquisadora de opinião pública com ligações republicanas, complementa que a polarização significa que a taxa de aprovação do desempenho no cargo flutua dentro de uma faixa estreita atualmente, em comparação com décadas anteriores. Uma aprovação na casa dos 40% baixos, ou até mesmo nos 30% altos, já não representa a catástrofe política que teria sido há vinte ou trinta anos, dado que os presidentes raramente atingem 50% de aprovação no início de seus mandatos.
Imagem: infomoney.com.br
Contudo, ela alerta que índices na casa dos 30% baixos, se precisos, indicam um desprendimento de partes da coalizão, sinalizando uma perda que vai além dos eleitores indecisos. A principal vantagem dos republicanos, segundo Anderson, é que o Partido Democrata enfrenta seus próprios desafios e carece de uma mensagem clara, exceto a crítica a Trump. Mesmo assim, se o cenário permanecer tão desfavorável, a desaprovação generalizada pode ser suficiente para gerar um impacto significativo nas urnas.
A Reação de Trump e a Perspectiva da Casa Branca
A Casa Branca, questionada sobre as pesquisas do presidente, optou por não comentá-las diretamente, mas exaltou o histórico de realizações de Trump. Davis Ingle, porta-voz da Casa Branca, declarou que “Nenhum outro presidente na história fez mais pelos americanos trabalhadores do que o presidente Trump, que trabalha incansavelmente para criar empregos, conter a inflação, tornar a moradia mais acessível, entre outras coisas.” Ingle acrescentou que Trump alcançou progressos históricos nos EUA e globalmente, e que sua agenda ainda está “apenas no começo” e continua a surtir efeito.
O próprio Trump, por outro lado, continua a projetar uma realidade diferente daquela percebida pela maioria dos pesquisadores independentes e estrategistas políticos de ambos os partidos. Ele frequentemente manifesta desconfiança em relação a resultados que não lhe são favoráveis. Em uma coletiva de imprensa durante a cúpula do G7 na França, em junho, ele afirmou que “As pesquisas são muito desonestas, assim como muitos repórteres”. Uma semana depois, em sua rede social, declarou que seus índices de aprovação estavam “NOS NÍVEIS MAIS ALTOS DE TODOS OS TEMPOS”.
Dois dias após essa declaração, em 26 de junho, Trump citou uma pesquisa de seus próprios pesquisadores que apontava uma taxa de aprovação de 50%. Insatisfeito, ele mesmo acrescentou mais 15 pontos a essa conta, escrevendo: “Outras pesquisas mostram minha taxa de aprovação em 65%, ou até mais!”. Em sua visão, “pesquisadores honestos são muito raros e difíceis de encontrar!”. Semanas depois, em 12 de julho, ele pareceu inventar outro número, embora, em sua própria versão, o apoio público estivesse em queda: “Taxa de aprovação de 59%”, com uma justificativa de “preços caindo junto com a redução nos custos de petróleo e gasolina”. Em nenhum desses casos ele citou uma pesquisa real que comprovasse tais números, e, ironicamente, o preço do petróleo subiu desde então.
Independentemente de sua crença nos números, Trump mantém uma postura de popularidade, mesmo quando os fatos indicam o contrário. Sua comprovada capacidade de influenciar legisladores republicanos nas eleições primárias tem sido crucial para manter seu partido alinhado. Contudo, a questão em Washington é se esse controle está começando a enfraquecer, especialmente diante da resistência republicana no Capitólio a propostas como destinar US$ 1,8 bilhão a apoiadores que alegam ter sido maltratados pela administração Biden, e a sua indicação de Todd Blanche para procurador-geral.
Observadores políticos já “descartaram” Trump em outras ocasiões, apenas para vê-lo superar controvérsias e números de pesquisas que seriam fatais para outros políticos. Ele parece indiferente aos apelos de republicanos que desejam que ele encerre o conflito com o Irã e se concentre mais na questão do custo de vida. Em vez disso, ele investe em projetos de legado, como um novo salão de baile na Casa Branca e um arco do triunfo, independentemente do que as pesquisas sugerem sobre o interesse dos eleitores. Douglas Heye resume sua filosofia com a sigla YOLO (“You Only Live Once” – Você só vive uma vez), indicando que Trump não se preocupa com o enfraquecimento de seu poder, o que, para Heye, é parte do motivo de sua resiliência e imunidade a certos escândalos.
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Acompanhar a história das avaliações presidenciais revela padrões e anomalias na política americana. A persistência de Donald Trump em manter sua linha de ação, mesmo diante de índices de desaprovação recordes, demonstra uma abordagem política que desafia as convenções. Para mais análises sobre o cenário político e as futuras eleições, continue acompanhando nossa editoria de Política e fique por dentro dos desdobramentos que moldam o futuro do país.
Crédito da imagem: The New York Times.